Arte Contemporânea Portuguesa em dicionário (abreviado)
Primeira Parte, A-L
ALFRED OPITZ, A Caminhada, técnica mista sobre tela, 40×30 cm, 2006.
Mais conhecido como germanista e catedrático, Alfred Opitz retoma nesta obra o figurativo com a finalidade de «narrar» uma pequena odisseia infantil. Um bando de crianças, que atravessa em pleno dia um matagal seco, é apanhado, repentinamente, pela chuva universal (uma cratofania, nos termos de Mircea Eliade). É neste espanto colectivo e no temente olhar erguido para o céu que reside todo o dramatismo do quadro. Agrada-nos a mistura de sépia com tons pálidos de azeitona (acentos laranja) e a sensação material, de estampas deslavadas ou apanhadas pela humidade bolorenta.
ANTÓNIO CARMO, O Modelo, desenho sobre papel, 65×71 cm, 2007; Memória, desenho sobre papel, 65×71 cm, 2007.
António Carmo, quarenta anos de carreira, marca apenas presença nesta colectiva, mantendo em ambos os desenhos expostos (tinta-da-china sobre papel) a unidade de traços antropomórficos com a sua pintura. O profuso decorativismo feminino advém, em Memória, de um movimento quase coreográfico ou reverberante. O resultado é, simplesmente, perfeccionista, requintado, mas déjà vu.
ARTUR BUAL, Sem Título, óleo sobre tela, 54×73 cm, 1989; Sem Título, óleo sobre tela, 24×33 cm, 1992.
Duas telas a óleo, em homenagem a este grande pintor português (1926-1999). Permaneço alguns instantes em frente da mais antiga, a de 1989. Num ambiente feérico, o artista evoca uma moura e o seu luminoso cavalo, cuja crina farta, reluzente, lhe cai majestosamente. Emociona a forma como a princesa (nota-se o diadema) encaixa no espaço entre a cabeça e o corpo do animal. Um momento lendário e misterioso, sobre um fundo nocturno, em azuis de mestre.
CARGALEIRO, Sem Título, técnica mista sobre cartão, 25×32 cm, 1971.
Uma boa lembrança do célebre artista que parece inspirar-se, nesta fase da sua criação, na ornaméntica popular, fitomórfica, dominada por verdes esmeralda e lilás. Ignoro a génese da sua inspiração, mas encontro provas em muitos outros espaços de sensibilidade artística folclorisante.
CÁRMEN PICHEL, Submersos, acrílico sobre tela, 80×60 cm, 2006.
Quem não sonhou com tesouros arqueológicos submersos, colunas ou ânforas miraculosamente conservadas? Cármen Pichel resolve tanto a composição como o cromatismo da argila limosa e das águas marinhas não muito profundas. Brilho correcto no primeiro e segundo planos. Contudo, qualquer juízo de valor sobre a pintora aguarda, naturalmente, mais oportunidades.
CRUZEIRO SEIXAS, Sem Título, técnica mista sobre carão, 28×20 cm, 1957; Sem Título, técnica mista sobre cartão, 33×28 cm, 1957; Sem Título, técnica mista sobre cartão, 28×20 cm, 1957.
Três obras do mesmo ano, provavelmente do acervo, deste clássico do surrealismo português (afirmado desde os anos 40). O erotismo que lhe tem sido sublinhado é mais evidente na última obra (martelo, cisne, borboletas), variação libidinal da «Jangada da Medusa». Apesar de serem trabalhos do período angolano da vida de Cruzeiro Seixas, o africanismo não parece tê-lo influenciado formalmente.
FIGUEIREDO SOBRAL, Senhora do Tempo I, peça escultórica patinada, sem data; D. Quixote e as Suas Dulcineias, técnica mista sobre tela, 90×120 cm, 2006; A Mulher Cavalo, peça escultórica patinada, sem data.
Escolho sem hesitação Quixote…, para explicar como entendo a obra deste plástico dual (pintor e ceramista). «Descobridor das substâncias sem nome», como se apresenta, Figueiredo Sobral é antes de tudo um criador, um demiurgo, no sentido religioso da palavra. A sua religião, de raiz fortemente pagã, onde tutela o multifacetado Proteu, assenta na transformação, no simulacro e na iconolatria. Por isso, o artista povoa, até à saturação, os quadros com relevos ― pequenos ícones de tradição católica ou infantil. Em suma ― um artista proteico, icónico, barroco. Tematicamente ― heróico, onírico, surrealista. Penso que estes dois eixos interpretativos se reencontram no seu Quixote («atleta de Cristo», como dizia Unamuno, mescla de sonhos e aventuras) e as suas Dulcineias. Quatro avatares são propostos neste quadro para o binómio Quixote/Cristo, Dulcineia/Maria. Do subtil «baralho» cromático, sentido em todas as direcções da obra, destaco o (madre)pérola, pela sua qualidade de ostentar o barroquismo genuíno deste grande mestre das plásticas portuguesas.
GUSTAVO FERNANDES, Delicate Pressure, óleo sobre tela, 50×150 cm, 2007; Força Viva 2, bronze, sem data; Agarra, bronze, sem data.
Arrisco logo a corrigir a etiqueta da exposição: pressure, e não présure (que não me parece nada acertado), quer que o pintor seja francófono ou anglófono.
Formado na escola canadiana, Gustavo Fernandes é um excelente pintor, de 43 anos, que vai, com invejável talento, do sur- ao hiper-realismo. Aqui está Delicate pressure, que, no meu entender, é a melhor obra recente exposta no 13.º aniversário do MAC, e que chama a atenção pela sua perfeição formal. Bem sei que há sempre um nariz que se torça alegando que a Arte é antes de mais visão que mestria. Mas, se sentirem aquele «mais de metade vazio», na parte inferior do quadro, todavia suficiente para equilibrar o volume e o peso do braço que pressiona o vidro, é sinal de que estamos perante uma indiscutível obra de arte.
HILÁRIO TEIXEIRA LOPES, Sem Título, acrílico sobre tela, 97×130 cm, 1990; Alegria de Viver, acrílico sobre tela, 130×162 cm, 1993.
Originário de Mirandela, onde, junto com o irmão Gil, impulsionou a criação de um museu em homenagem ao pai, Armindo Teixeira Lopes, o mestre Hilário está no MAC com duas pinturas fáceis de identificar. Em Alegria de Viver sobretudo, o pintor parece empenhado a provar que a cor não é corpúsculo, mas sim onda. Através de movimentos ondulatórios, o artista obtém um instantâneo efeito euforizante, com paralelismos apenas em alguns pintores latino-americanos ou africanos. Toda a exuberância (dizia eu, hilariante) brota deste elã vital, dionisíaco, que prova que o abstraccionismo não significa a abolição dos afectos. Onde alguns podiam ver apenas uma mescla nervosa de cores, há visão, equilíbrio e marco pessoal ― há arte pura, perceptual.
JOÃO DUARTE, Éden II, mármore preto de Vila Viçosa e ferro, sem data.
Com Éden II voltamos ao primitivismo, pois a mulher é, para este escultor, uma Vénus neolítica. O artista opta pela excessiva materialização, exaltando a massa corpórea em nome da fecundidade. Contudo, parece que depois de Brâncusi e Henry Moore, o caminho esteja (por enquanto) vedado.
JOSÉ LUÍS TINOCO, Exercícios sobre a solidão I, acrílico sobre tela, 73×116 cm, 2005; Exercícios sobre a solidão II, acrílico sobre tela, 65×114 cm, 2005; Exercícios sobre a solidão III, acrílico sobre tela, 73×116 cm, 2005.
Encanta-me neste artista plural o cromatismo. Lembro-me até de ter visto na Internet uma fotografia sua em camisa, fato e camisola, subtilmente combinados, em que o pintor parece uma espécie de mensageiro das próprias harmonias ― algo raro, belo e maneirista. Castanhos cacau, azuis-da-prússia, laranjas tangerina, da esquerda à direita, deslocando-se como as nuvens. Marcos de planos verticais, arquitecturalmente concebidos. Uma obra elegante, sem dúvida. Através de um antropomorfismo essencializado (nota-se o desenho das silhuetas a sugerir o carvão), José Luís Tinoco «conta» uma história a dois, banal e entristecedora, sobre a solidão. Diz-se até que esta é a forma mais triste de solidão. Ora vejamos. Em Exercícios I, um homem acabado de chegar a casa, tira pacientemente o fato, coloca-o num cabide antropomórfico e, dirige-se, apenas em camisa interior, para o quarto, para uma partida sexual. O segundo instantâneo mostra a mulher, à beira da cama, bebendo um copo de água. O homem (em pormenor, o relógio) aguarda que ela fique disponível. Finalmente, o terceiro momento do tríptico: ele, remoendo banalidades rotineiras em atitude pensativa à Rodin; ela, preservando a memória do coito. Olho de novo para os seios e gosto do tratamento que o pintor dá à uberdade consumida, tal como à ausência das cabeças (em I e III), alegória para significar o ser que vive, por momentos, apenas na emocionalidade.
JUAN SÁNCHEZ LÓPEZ; Zéfiro I, técnica mista sobre tela, 130×97, 2005.
Espanhol, psiquiatra, Juan Sánchez López já é uma presença constante no MAC. Eis um pintor dinâmico, que propõe um estilo «analítico», e que assenta num cromatismo viscoso, no contraste e em movimentos «residuais». Em Zéfiro I, temos, em meu entender, um original «comentário» mitológico. Mensageiro da Primavera, Zéfiro refresca com o seu hálito os Campos Elísios, renovando a Natureza. Mas será este o significado dos círculos que o autor traça nos dois registos da tela? Ou haverá aí o sonho da abertura da terra fresca, vaginal, e o erguer vegetal do falo? Será que o artista «analisa» a fecundidade? Não sei, é, pelo menos, o que sinto. E deixo as interrogações para uma possível pathos-logia pictórica em Juan Sánchez López.
LOURDES LEITE, Música de Silêncios, óleo sobre tela, 100×50 cm, 2007; Invasão, óleo sobre tela, 116×89 cm, 2007.
Duas obras recentíssimas de Lourdes Leite, as duas merecedoras da atenção do cronista. Prefiro Invasão pela generosa paisagem crepuscular, pela graduação da composição e pelo tratamento da luz que invade o céu, as colinas e a floresta. A lente da objectiva diz-nos que é real o que a artista vê. E é exactamente este truque inteligente, poético, que justifica o destaque da pintura, pela criação ad hoc de um olhar privilegiado, intrínseco, que a acompanha.
LUÍSA NOGUEIRA, O Fascínio das Gaivotas Transparentes, óleo sobre tela, 60×70 cm, 2006; Os Ladrões de Profecias, óleo sobre tela, 60×70 cm, 2006.
Nas duas galerias, os quadros de Luísa Nogueira seguem os de Lourdes Leite. É inegável a afinidade cromática e perfeccionista que existe entre as duas artistas. Mas a temática e os meios são bem diferentes. Luísa Nogueira é uma pintora do onírico, que nos revela um mundo fantasmático, precioso, de uso muito pessoal. Escolho o segundo quadro, Os Ladrões de Profecias, pela mensagem humanista que me parece trazer. Há séculos que o ser humano sonha com o voo, com a evasão da prisão gravitacional, com máquinas que possam projectá-lo no éter, nas mil e umas esferas. E houve também profetas da inteligência tecnológica, como o Leonardo, por exemplo. Mas os homens sabem também transformar os sonhos em pesadelos, e estas criaturas chamam-se ladrões de profecias, agentes do mal, do apocalipse. Na parte inferior do quadro, encontro as tonalidades escuras do sono; no meio, em ocre, laranja e amarelo, quimeras ávidas de devorar profetas; e no topo, um foguetão que se ergue num clarão a rarear o azul celeste. O visionarismo nasce do onirismo e é um dos traços definitórios deste belo quadro de Luísa Nogueira.
DAN CARAGEA
Crítico de arte