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Literatura

Lágrimas de leite

Chico Buarque

Chico Buarque

por Tales Jaloretto

No candelabro da memória, fagulhas ora iluminam salões imperiais, ora em penumbra, mostram porões em pedaços. Assim, Chico Buarque conduz o atual romance Leite Derramado, que através do monólogo protagonizado por Eulálio d’Assumpção narra à trajetória desta tradicional família percorrendo os tempos áureos na monarquia, na Primeira República, até a situação decadente que o deixa no quarto coletivo em um hospital.

Em Budapeste (2003), o autor convergiu à estrutura narrativa. Neste, embaralha deixando as peças espalhadas para serem juntadas na imaginação do leitor. São contos repetidos, retomadas de histórias mal-acabadas e frases falhadas, com isso o escritor obteve uma exímia construção de um personagem. E apesar da aparente desorganização das idéias, Chico impôs força na pena e fincou a letra neste livro trazendo lógica a este emaranhado.

Após cinco anos de silêncio literário, a ideia de Leite Derramado veio de uma antiga canção. “Em Budapeste falei de um lugar que não conhecia, queria escrever agora sobre um tempo desconhecido, e escutei uma versão de (Mônica) Salmaso da música Velho Francisco e surgiu a ideia”, ressaltou Chico Buarque.

O romance deixa vivo a poética do músico, “a respiração de Matilde chamava as ondas, que lhe respondiam com seu espraiar”, e também engraçado as palavras de Eulálio, “seria até cômico, eu aqui, todo cagado nas fraldas, dizer a vocês que tive berço”.

Lançado com 70 mil exemplares, e muito além da história do Brasil nos últimos dois séculos e o declínio da família Assumpção, o livro se aprofunda na “alma feminina”, característica reconhecidamente do autor.  Pois Eulálio deixa escorrer por entre os dedos a vitalidade de sua mulher, repreende e busca moldar Matilde aos bons modos. “E vi respingos de leite nas bordas da pia, o ar cheirava a leite, vazava leite do vestido de sua mãe”. E a naturalidade de Matilde se esvanece e o leite é derramado.

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