Apresentação
Publicando hoje as Recordações de Creanga como sétimo volume da colecção do Leitorado Romeno em Lisboa, não faço mais que cumprir a promessa feita na nota sobre o nosso autor, em 1946, quando da publicação dos “Novos Contos Romenos”. Graças ao conto que figura nessa antologia (p. 15-26), Ion Creanga não é um nome completamente desconhecido para o leitor português, que teve entretanto ocasião de ler um outro conto do mesmo autor, no “Mundo Literário” de 1-2-1947. E para que o mais castiço dos prosadores romenos seja apresentado em Portugal de maneira competente, dirigi-me ao seu exegeta mais categorizado: Jean Boutière, professor de língua e literaturas romenas na Sorbona, autor do melhor estudo de conjunto sobre o nosso escritor. (1) Tal colaboração honra-nos, e eu não podia deixar de lhe dirigir os mais vivos agradecimentos, em nome de todos os seus leitores portugueses.
Seja-me permitido, antes de lhe ceder a palavra, que eu ponha de parte a modéstia do meu antigo aluno e bom amigo António Ruivo Mousinho, para dizer quanto esta versão portuguesa lhe deve. Porque, se a iniciativa e a exactidão desta tradução me pertencem (2), deve fazer-se-lhe a justiça de precisar que foi ele quem, durante três anos, se consagrou com amor e obstinação à tarefa de achar a correspondência portuguesa dum texto dos mais difíceis, por vezes quase intraduzível em virtude da sua intensidade expressiva e do seu carácter local.
Quero agradecer igualmente ao colega e amigo Dr. Jacinto do Prado Coelho, da Faculdade de Letras de Lisboa, que teve a amabilidade de ler a nossa tradução e de sugerir uma série de emendas muito felizes, sobretudo no que diz respeito ao falar aldeão – e nisso felicito-me por ter podido recorrer ao estudioso e penetrante conhecedor de Camilo, o mago do vernaculismo português.
Um último agradecimento, em fim, a essa artista do lápis que é Maria Almira Medina, cuja recente exposição me dispensa de a apresentar; a sua delicada sensibilidade, igualmente manifesta no volume de versos “Distância”, conseguiu a série de dezoito graciosos esboços que adornam este “livro de oiro” da literatura romena.
Livro a que eu auguro o mesmo êxito que em Itália (1), para maior glória do genial Creanga e para justa apreciação em Portugal dos valores culturais da Roménia.
Victor Buescu
Leitor de língua e literatura romenas
na Faculdade de Letras de Lisboa
(1) J. Boutière, La vie et l’oeuvre de Ion Creanga, Paris, Gamber, 1930.
(2) Assim como as notas.
(1) Ion Creanga, Ricordi d’infanzia, trad. Di A. Silvestri-Giorgi: Firenze, La nuova Itália, 1931. – A França possuirá em breve duas versões dos Souvenirs d’enfance, uma feita por Yves Auger, professor na Universidade romena de Cluj, e a outra por J. Boutière, professor na Sorbona, que teve a bondade de nos comunicar o Prefácio, escrito para esse livro.