Os Cardos de Baragan de Panait Istrati

Prefácio

O caso de Panait Istrati é eloquente no que diz respeito ao ingrato destino da literatura romena que, sendo escrita num idioma de pouca circulação, está condenada a ficar dentro da esfera restricta dum só país, apesar da sua maturidade cada vez mais acentuada. Ora, justamente, a obra de Panait Istrati (que é um dos melhores romancistas romenos, mas não o melhor), tendo a sorte de ser redigida numa língua universal como a francesa, faz dele o prosador romeno mais popular em todo o mundo. “Istrati é um grande escritor, talvez o maior novelista europeu, depois de Máximo Gorki, mas não é o maior escritor romeno. Mesmo sem tomar em conta um romancista genial como Liviu Rebreanu, há diversos escritores romenos contemporâneos que são, pelo menos, de valor igual ao de Panait Istrati: temos, por exemplo, M. Sadoveanu, Cezar Petrescu, Mme. Hortensia Papadat-Bengescu, Gib I. Mihaescu, Camil Petrescu, Ionel Teodoreanu, Pavel Dan, etc.” (M. Eliade). Deplorando este handicap orgânico que as letras romenas conhecem devido ao entrave linguístico, e desejando que seja contrabalançado por uma campanha intensa de traduções (o que só foi feito esporàdicamente), devemos congratular-nos, como Romenos e como Europeus, que a prosa pujante de Panait Istrati esteja à disposição de todos, graças ao facto de o seu autor a ter escrito directamente numa língua de grande expansão.
A sorte de Panait Istrati em Portugal é reveladora: enquanto os grandes prosadores acima citados são totalmente desconhecidos (excepto Rebreanu), o nome de Panait Istrati vem naturalmente aos lábios de todos, quando se quer mencionar um escritor romeno, em virtude da tradução em português de numerosas das suas obras, como: Kira Kiralina, O tio Anghel, Floarea, etc. Assim, tendo-me pedido a Editorial “Gleba” – que muito contribuiu para a difusão da literatura romena em Portugal – um “Prefácio” para Os Cardos do Baragan, julgo que pouco me resta a dizer ao leitor sobre um autor que lhe é já familiar; tratarei, pois, de preferência do significado da obra istratiana e do seu lugar na literatura romena e europeia.
Panait Istrati, nascido em 1884 numa aldeia perto do grande porto danubiano de Braila, levou uma vida agitada, eterna vagabundagem: Turquia, Grécia, Palestina, Egipto, Itália, África do Norte, Suiça, França … – tanto foram os ceus sob que a sua alma atormentada procurou resposta às angustiosas perguntas humanitárias, antes de partir para a última viagem, para o Além, em 1935.
Autodidata, Istrati passa a infância nos bairros do buliçoso e pitoresco porto de Braila, que ele fará reviver com tão grande vigor nos seus romances. Depois de um primeiro período de jornalismo brailês, Istrati inicia em 1911 a série das suas peregrinações, em busca de conhecimentos e de experiência humana, para chegar a arrastar uma existência de proletário em França, primeiro no sul (como estivador, fotógrafo ambulante, carregador, etc.), em seguida em Paris. O material humano acumulado durante essa vagabundagem sem cessar recomeçada, assim como o seu próprio génio, incitaram-no a escrever; fê-lo em francês, redigindo um capítulo de Kira Kiralina que enviou a Romain Rolland. O famoso autor de Jean – Cristophe não hesitou um só instante em reconhecer nesse obscuro anónimo um grande escritor, e publicou a sua prosa com elogios, na revista “Europe” de Agosto de 1923; um ano depois, o mesmo Rolland editava em volume Kira Kiralina com um prefácio em que, não menos entusiasmado, via no autodidata Panait Istrati um novo Máximo Gorki, um “contista inato”, cujo primeiro volume revelava “um tumulto de génio”. Tais afirmações, devidas à autoridade dum Romain Rolland, produziram ràpidamente seu efeito, e Istrati tornou-se célebre de um dia para o outro. Era a glória, que nunca mais havia de deixá-lo durante toda a sua vida, consagrada a uma vasta obra.
Esta é essencialmente composta de dois grandes ciclos, cada um de quatro romances; o primeiro é representado por: Kira Kiralina, O tio Anghel, Os “Haiduci” e A Princesa de Snagov; do segundo fazem parte: A Casa Thüringer, Escritório de colocações, Nascer do sol sobre o Mediterrâneo e Pôr-do-sol sobre o Mediterrâneo. Além disso, publicou outros romances não incluídos nestes ciclos: Codin, Mihail, Nerantsula e Os cardos do Baragan.
Os dois ciclos intitulam-se, respectivamente, As histórias de Adrian Zograffi e A vida de Adrian Zograffi. Esta personagem não é outra senão o alter-ego do autor, cujos livros são fragmentos duma comovente autobiografia. Nerantsula e Mihail são o poema de Braila, enquanto Os cardos de Baragan é a ressuscitação da revolta agrária de 1907.
Panait Istrati, mesmo nos romances a-cíclicos, está sempre a descrever-se a si-próprio: “Pode-se ser escritor – nota ele algures – se não se tem (e é o meu caso) o espírito inventivo? Sou incapaz de imaginar uma história que eu não tenha vivido pelo menos nas suas grandes linhas.” Nesta confissão reside a explicação do seu sucesso literário: o espírito inventivo deste “contista inato” é reforçado por uma sinceridade ardente e uma psicologia que toca o génio. Istrati contou-nos ao longo da sua obra o drama patético do vagabundo que, à procura de justiça e do amor, procura-se ao mesmo tempo a si. O centro do sistema solar da sua obra samaritana é o coração: “ A terra é bela? (pergunta a si-próprio um dos seus heróis). Oh, não, mentira e mais mentira! Toda a beleza vem do nosso coração, enquanto está cheio de alegria. Quando a alegria nos deixa, a terra inteira é um cemitério.”
A sinceridade fervorosa do coração de Panait Istrati revela-se nesta página de confissões, que é na essência uma admirável definição da própria obra:
“Só é apoiado nos cotovelos à janela – escrevia ele durante as suas peregrinações pelo Mediterrâneo – sonho, por vezes horas inteiras. Sonho com este meu espírito vazio de recordações históricas. E não está certo. Porque o sonho é muito mais concreto quando se apoia sobre os fortes pilares das reminiscências. E sei pouquíssimas coisas do passado longínquo do Egipto. Não foi o tempo que me faltou para poder estudar, mas a impossibilidade de reter os factos. O meu cérebro é contrário a toda a ajuda que vem dos livros. Se minha mãe me tivesse matriculado no liceu, eu teria sido uma espantosa mediocridade. Ao passo que, tal como sou, não macaqueio ninguém, e não me atrevo a voar em alturas que exigem asas que não possuo. Em troca, aprecio toda a migalha de verdade, que queima, como o ferro ao rubro, o meu coração insaciável. Sou uma brasa ardente de desejos. A terra e a vida nunca serão demasiado grandes, para aquilo que eu possa sentir. Uma toupeira incandescente – em definitivo, eis o que sou”.

Sinceritatea ferventă a inimii lui Panait Istrati se revelează în această pagină de confesiuni, care este în esenţă o admirabilă definiţie a propriei opere:
“Singur şi sprijinindu/mi coatele la fereastră / scria el în timpul peregrinărilor pe Mediterană / visez câteodată ore întregi. Şi nu e bine. Deorece visul este mult mai concret când se sprijină pe stâlpii puternici ai amintirilor. Şi cunosc foarte puţine lucruri despre trecutul îndepărtat al Egiptului. Nu este de vină timpul care mi/a lipsit să studiez, ci imposibilitatea de a reţine faptele. Creierul meu se împotriveşte oricărui ajutor care vine din cărţi. Dacă mama mea m/ar fi înscris la liceu, eu aş fi fost o mediocritate uimitoare. În vreme ce, aşa cum sunt, nu maimuţăresc pe nimeni şi nu îndrăznesc să zbor către înălţimi care cer aripi pe care nu le posed. În schimb, apreciez orice fărâmă de adevăr, care arde, ca fierul înroşit, inima mea insaţiabilă. Sunt un foc care arde de dorinţe. Pământul şi viaţa nu vor fi niciodata prea mari,

Dissemos, de passagem, que Os cardos do Baragan são, aparentamente, o romance da “jacquerie” agrária de 1907. Mas, como o leitor terá ocasião de ver, as insurreições dos camponeses são nele tratadas episòdicamente. Panait Istrati revela-se, entre todos os escritores romenos que escolheram por tema essas revoltas, o mais alheio possível à concepção do “romance social”, tal como foi compreendido e realizado, sobre o mesmo assunto, por Liviu Rebreanu em A revolta e Cezar Petrescu em “1907”. Em Istrati, estes movimentos sociais são reduzidos à sua expressão mais simples, porque ela é justamente a única que enquadrava com o talento do escritor – um introspectivo – e com a visão deste romance – obra de atmosfera e não de substância épica. Os cardos do Baragan são antes – segundo a feliz definição do crítico Perpessicius – o poema das solidões, dos horizontes infinitos, do império dos cardos, levados pelo mundo fora com o nordeste que os persegue como almas penadas.
Se bem que date de 1928, este romance é um dos melhores de toda a obra, pela densa atmosfera de nostalgia que envolve as vastas planícies do Baragan e os erradios de alma istratiana; o estilo tinha já chegado a uma simplicidade patética que deixa adivinhar a perfeição a que este escritor, minado pela tísica aos 51 anos, teria podido chegar numa vida menos tormentosa e mais longa.
Escritor romeno de língua francesa, Panait Istrati parece ser perseguido, mesmo após a morte, por um Destino adverso. Com efeito, o nosso autor é igualmente ignorado pelos historiadores literários das duas pátrias: Bédier-Hazard, Thibaudet, etc., não mencionam Istrati nem mesmo nos Índices! Quanto a René Lalou, consagra-lhe apenas algumas linhas rápidas. Do lado romeno, o excelente manual de Basil Munteanu (Paris, 1938) ignora-o completamente, ao passo que G. Calinescu, na sua monumental Istoria Literaturii Române (1941), é tão avaro como Lalou, nestas poucas linhas reticentes e melancólicas:
“ Embora Panait Istrati tivesse dado também versões romenas à sua obra francesa, ele não será nunca um escritor romeno, porque a essas versões faltam a espontaneidade e aquela tradução servil dos modismos que produzem em francês um efeito exótico. E – facto que deve fazer pensar os emigrantes – as histórias literárias francesas ignoram-no também.”
Mas, superando estas negligências ou reticências dos críticos franco-romenos, e esperando o veredicto definitivo da posteridade, pode afirmar-se que a obra de Panait Istrati entrou já no quadro da consciência da literatura universal. Quanto à literatura romena – tal como ela se exprime pela voz autorizada do crítico Perpessicius – reivindica Panait Istrati com firmeza, pois a sua obra vem completar a paisagem da nossa literatura dos últimos vinte anos: com Rebreanu e Sadoveanu, Istrati constitui a trinidade do “epos” romeno moderno; com eles ainda, Panait Istrati é, de todos os escritores modernos do povo latino dos Cárpatos, aquele que traz mais problemas, mais herois e mais individualidade.

Prof. Victor Buescu

Leitor de língua e literatura romenas
na Faculdade de Letras de Lisboa

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