Archive for September 8, 2007

José Saramago

Romania: Portuguese Authors translated into Romanian

Arte Contemporânea Portuguesa em dicionário (abreviado) por Dan Caragea, Crítico de Arte

Dicionário de Arte Contemporânea Portuguesa (abreviado)

Segunda Parte

M-Z

MANUELA PINHEIRO, A Viagem em Disformismo Social, óleo sobre tela, 151×100 cm, 2006; O Poeta, óleo sobre tela, 50×130 cm, 2007; Fernando Pessoa ― Caminhada de Viagem, óleo sobre tela, 73×92 cm, 2007.
Acho que devíamos lembrar-nos dos livros de Antonio Tabucchi, do «Réquiem» do realizador suíço Alain Tanner e de outras fontes para entendermos melhor a ligação entre Jerónimo Bosch e Fernando Pessoa, proposta por Manuela Pinheiro no seu quadro A Viagem em Dismorfismo Social. Produzir desassossego não é só a função da literatura, mas da arte em geral, dizia Pessoa. Por isso, de Tentações de Santo Antão, Manuela Pinheiro retira a ideia do tríptico (empobrecida) e a sugestão de criar uma fauna fantástica e dismórfica, alegoria crítica da realidade social, desumanizada e repulsiva. Julgo não errar ao considerar que a temática cultural e o precioso tratamento cromático não escapam ao público avisado. Contudo, o ciclo pessoano de Manuela Pinheiro é menos deslumbrante do que se pode julgar à primeira vista.

MARIA JOÃO FRANCO, O Modelo, técnica mista sobre tela, 200×150 cm, 2007; Mulher de Vermelho, técnica mista sem tela, 200×150 cm, 2007.
A fenomenologia artística de Maria João Franco proclama que o ser é corpo, e que o corpo é cor. Por isso, cor-po passa a ser conceito essencial nesta artista. Ela propõe-nos a descorporizarção, a evasão na cor, presenças femininas fluidas, marcadas pelo ritmo e pelo contraste. É na viscosidade em movimento, como em Mulher de Vermelho, na consistência placental da matéria, que reside toda a sua plasticidade. A pintora exige a autonomia da percepção, simbólica, stendhaliana, em vermelho e preto. Artista do feminino, Maria João Franco fecha todo um caminho da dispersão/depressão do nu, num grito em surdina, de sofrimento existencial.

MARÍLIA VIEGAS, Cidade-Lago, óleo e texturas sobre tela, 120×60 cm, 2004; Cidade-flor, óleo e texturas sobre tela, 100×100 cm, 2004.
As pinturas citadinas de Marília Viegas revelam um pronunciado gosto pela cartografia e arquitectura antigas, presente já em alguns criadores contemporâneos. Penso que o duplo significado da palavra «planta» permite à artista o desenvolvimento vegetal do tema, tal como acontece em Cidade-flor. Fragmentos de mapas figurando uma aglomerada arquitectura urbana de outros séculos, onde o popular e o cultural se justapõem harmoniosamente, são dispostos como pétalas, em movimento espiralado. Há, sem dúvida, algo de fascinante na reiteração do mito babélico, seja ele da cidade real, seja da utópica, mas sempre «corola de maravilhas do mundo», como dizia Lucian Blaga.

MATILDE MARÇAL, A Zurbarán II, óleo sobre tela, 69×116, sem data.
Há sedução cromática e uma tranquila luminosidade neste quadro (paralelismo cromático ― ocre, laranja e roxo ― com uma das Nossas Senhoras de Zurbarán) em que distingo um recipiente e quatro cardos, mas onde a interpretação sexual talvez seja abusiva. A hierática, igualmente. O que me envolve é um sentimento nostálgico de perda e de decrepitude camuflada.

MIGUEL BARROS, Entre os Rios, técnica mista sobre MDF, 47×124 cm, 2007; Eclipse, técnica mista sobre tela, 90×80 cm, 2006.
Com dois elementos tirados de Eclipse, a evocar uma ponte e a refracção da luz (laranja puro), Miguel Barros tenta, em Entre os Rios, uma composição em que se destaca um longo ramo dissecado, veia lenhosa em hemorragia azul (cor predilecta). Engenhoso, decorativo, mas perigosamente perto de design.

MIRA SOUSA DIAS; Memórias do Tempo, técnica mista sobre tela, 130×105 cm, 2006.
De materiais «preciosos» ― um pedaço de tecido estampado, abundante verniz cor do vinho, uma reprodução de um quadro antigo emoldurado a branco, e castanhos floreados na parte inferior da tela ―, Mira Sousa Dias cria um quadro opulento, neo-renascentista e burguês, ideal para decorar um quarto de opereta. Mas o requinte é de bom gosto.

NELSON DIAS, Sem Título, óleo sobre tela, 130×98 cm, 1967.
Sem Título é o quadro exposto em homenagem ao pintor desaparecido prematuramente (1940-1993). Esta obra tem hoje quatro décadas, e julgo que muitos dos pintores contemporâneos não têm trazido muito mais, até porque as neuroses existenciais «falam» repetitivamente. Num espaço de contraste, tensão e cisão interior, há sempre uma janela com outra luz, a da esperança e do alento.

PEDRO CHORÃO, Sem Título, acrílico sobre tela, 97×146, 1985.
Simples: uma única janela, com parapeito, e um grande receptáculo de nebulosidade. Quadro lírico, harmonizado, mas de pouco impacto.

RAUL PEREZ, Sem Título, óleo sobre tela, 27×20 cm, 1978.
Surrealista, a dissertar sobre cidades absurdas, de arquitectura maciça, desertas e inanimadas, na via de alguns artistas locais e franceses. Uma obra meramente museística.

RICARDO PAULA, A Procissão, óleo sobre tela, 81×100 cm, 2002; Quem Tem Medo do Lobo Mau, óleo sobre tela, 120×150 cm, 2003; Manhã, óleo sobre tela, 150×60 cm, 2006.
Gosto deste pintor, entre os melhores da galeria, discípulo de Luís Dourdil (1914-1989), sobretudo quando aborda temas do imaginário português. Há um jogo poético de encanto e desencanto, como em Quem Tem Medo do Lobo Mau, onde as leituras psicanalíticas, na linha de Bruno Bettelheim, deviam ser subtilmente consideradas. O sedutor equilíbrio cromático e o seu original antropomorfismo, que parte de projecções gráficas infantis, merecem, neste quadro, toda a atenção do público. Penso também que a experiência pessoal, paterna e familiar (espero não errar!) lhe marcou esta fase, já integrável na história da arte portuguesa.

ROBERO CHICHORRO, Musicando Jogos com Sol, acrílico sobre tela, 120×100 cm, 2007; Pastoreio Sonhando, acrílico sobre tela, 120×100 cm, 2007; Era uma Vez a Lua, acrílico sobre tela, 120×120 cm, 2006.
Muito bom pintor, autodidacta, Roberto Chichorro traz a africanidade a Portugal, numa encantadora proposta de interculturalidade. Escolho Pastoreio Sonhado, pelo cromatismo sensualista e eufórico, pelas particularidades do desenho (que me fazem lembrar artistas naïfs, Chagall, etc.), pela magia com que o seu Pã desperta o erotismo universal. E é sempre a música que arquitecta o sonho.

ROMEO NIRAM, Miss Pogany, 1912-1913, óleo sobre tela, 121×61 cm, 2007.
Pintor romeno, Niram é o mais jovem artista deste 13º MAC, com um quadro de uma série dedicada a Brâncusi, o maior marco da escultura do século XX. Brâncusi conheceu Miss Margit Pogany, jovem pintora húngara, em 1910, no Salão de Outono, em Paris. Ela esteve várias vezes no seu atelier, e foi assim que nasceu este ciclo brâncusiano, de onze variantes, trabalhadas entre 1912 e 1933. Niram «penetra» numa destas sessões e explora a emocionalidade, a transfiguração artística, o platonismo erótico, os fantasmas, as querelas estilísticas e as modas da revolucionária Paris antebélica, tudo num diálogo com o presente e consigo, como artista. Pelo jogo de pretos, brancos e ocres, Niram impõe a aceitação da Memória: fotográfica, discursiva, cultural e intimista. Noto a sua acutilante lógica de xadrezista. Uma obra nitidamente pós-moderna.

SÉRGIO AMARAL, Santo António de Quatro Faces, cerâmica, sem data; O Músico, cerâmica, sem data.
Um ceramista artífice de pequenos deuses, vibrantes e originais, cómicos e benéficos, provavelmente numa réplica bem consistente ao imaginário nórdico. Há mais que primitivismo neste artista, há toda uma mitologia e um panteão a ser inventariado. Jugo que o barro deve ser nele a matéria (genética).

TERESA MENDONÇA; Murmúrios, acrílico sobre tela, 73×92 cm, 2007; Ritmos, acrílico sobre tela, 100×150 cm, 2007.
Teresa Mendonça foi prémio «Revelação» deste 13 MAC. Ritmos cromáticos desenvolvidos na vertical, em vermelho, branco, amarelo e verde. Algumas tonalidades escuras, realçando as dominantes. E é tudo. Será o suficiente? Não fico nada convencido. Mas os gostos disputem-se.

Dan Caragea

crítico de arte

Cind cutiile de detergenti devin arta: estetica analitica a lui Arthur Danto

Cind cutiile de detergenti devin arta: estetica analitica a lui Arthur Danto

Victor POPESCU

Dragos PATRASCU
Estetica analitica: Arthur Danto
Editura Artes, Iasi, 2005, 208 p.

Inchipuiti-va un apartament din Tokyo, in care panourile din hirtie de orez ce delimiteaza una dintre camere sint murdarite de funinginea din strada si, mai mult, sint stropite, in timpul unei furtuni, cu apa murdara de pe acoperis. Urmarea: niste panouri patate in gri si negru numai bune de aruncat. Intimplator, proprietarul, „iubitor de frumos“, aude ca pe piata de arta este pus la vinzare un paravan realizat de unul dintre maestrii artei contemporane. Proprietarul va achizitiona degraba noua opera de arta si va observa ca panourile au aceeasi distributie de gri si negru ca si cele vechi, murdarite. Si totusi, in noile pete, „estetul“ nostru descifreaza nori si petale, o ploaie simbolica si chiar silueta unui dragon.

Dar toate acestea ar fi putut fi identificate cu putina imaginatie si pe paravanul initial. Prin ce difera, atunci, cele doua obiecte: cel utilitar de cel artistic? La fel s-ar putea intreba: prin ce difera panourile pictate ale lui Lichtenstein de benzile desenate pe care le reproduce in mod fidel ori prin ce difera roata de bicicleta agatata intr-un atelier de cea expusa de Duchamps intr-un muzeu?
Acestea sint o parte din intrebarile puse de Dragos Patrascu in cartea sa Estetica analitica: Arthur Danto. Un volum care isi propune sa prezinte sistematic estetica teoreticianului american al artei, cunoscut si discutat in mediul occidental al ultimilor 20-30 de ani.

Danto este practicant al filozofiei analitice, curent preocupat indeosebi de natura si structura limbajului. Daca parintii filozofiei analitice (Carnap, Wittgenstein) afirmasera ca limbajul artistic este lipsit de sens, Danto va parasi aceasta viziune radicala. Limbajul artei, va spune el, este mai mult decit o simpla expresie a unor sentimente, el are o semnificatie specifica si nu este sinnlos, fara sens. (Iar aici ajunge sa ne gindim la faptul ca orice instalatie ori obiect din arta contemporana e insotit de un text justificativ, de un comentariu estetic sau ideologic.) Mai mult, opera insasi este mai curind limbaj decit imitatie, este expresie a unei idei si nu reprezentare mimetica a ceva real. Ca suport ideatic, arta nu va putea subzista decit intr-un orizont ideologic si hermeneutic.
Lestul teoretic este evident in orice act de receptare estetica, observa Dragos Patrascu. Si cum fiecare veac impune cadrele sale de discutie asupra artei, ne-am putea intreba: ce sansa ar fi avut o lucrare fovista cu o jumatate de secol inainte de aparitia acestui curent sau cit de prizata ar fi fost „naivitatea emotionanta“ a reprezentarilor spatiale ale lui Giotto in secolul al XVII-lea dominat de teoria optica a perspectivei? Toate aceste lucruri par sa spuna acelasi lucru: istoria artei nu este decit o istorie a interpretarilor, o insiruire a unor atitudini metaartistice mai mult sau mai putin constientizate. O concluzie provizorie care are nevoie de citeva nuante.

- O moarte anuntata
Chiar din primele pagini ale Esteticii analitice, Dragos Patrascu indica felul in care subtilitatea filozofiei analitice poate fi utila in rezolvarea disputelor dintre teoreticienii artei. Atunci cind ne intrebam in legatura cu „viitorul artei“, trebuie sa distingem – conform metodei analitice – intre (1) speculatiile cu privire la viitorul artei si (2) speculatiile care vor sa spuna ceva precis despre arta viitorului. In primul caz, problema nu poate fi rezolvata decit printr-o circumscriere clara si distincta a artei, a istoriei sale si a sensului acestei istorii. In cazul al doilea, pretentia de a imagina arta viitorului, intr-un context diferit de cel prezent, este absurda (caci cine s-ar fi incumetat, in vremea impresionismului, bunaoara, sa profeteasca aparitia unor „obiecte gata-facute“ peste doar o jumatate de veac?).
Revenind la primul punct, s-ar putea intreba: care este insa „sensul“ artei? Altfel spus: in ce fel „progreseaza“ arta? Raspunsul lui Danto este precedat de doua negatii. Evolutia artei nu inseamna sporirea capacitatii de a imita realitatea (caz in care fotografia si filmul ar deveni „culmea“ artistica), la fel cum arta nu este nici o succesiune egala a diferitelor maniere de a exprima afectivitatea, caci in acest caz istoria artei s-ar reduce la o istorie a vietii artistilor si, pina la urma, „nimeni nu isi poate inchipui ca scopul cubismului se limita la expresia sentimentelor uimitor de concordante ale lui Braque ori Picasso fata de ghitare“, observa Dragos Patrascu.

Arta si evolutia ei vor fi reconsiderate din inedita perspectiva a „lumii artei“. Intr-o definitie aproximativa, Danto precizeaza ca lumea artei este „universul istoric ordonat al operelor de arta legitimate prin teoriile ordonate, la rindul lor, istoric“. Lumea artei presupune atit un sistem de teorii acceptate la un moment dat, cit si un grup de artisti si critici, versati in a recunoaste intr-o opera de arta, stilul, valoarea ori factura sa. Confirmind intr-un fel si observatiile unui Bourdieu legate de necesitatea recunoasterii si legitimarii artistului in cimpul cultural, Danto sustine (de pe o pozitie net discordanta cu stingismul sociologului francez) ca „a vedea ceva ca arta presupune ceva ce ochiul nu poate percepe – o atmosfera de teorie artistica, o cunoastere a istoriei artei, o lume a artei“. Concret, a vedea in copiile din bronz ale unor cutii de bere o sculptura, o opera de arta (cazul lui Jasper Johnes), presupune a face parte dintr-un univers de „esteti“ care sint de acord cu noua teorie a artei, conform careia aproape orice poate sa devine obiect de arta, idee inacceptabila pentru „lumea artei“ de la inceputul secolului trecut.

Aceasta noua teorie a artei, de o permisivitate maxima, nu face decit sa confirme celebra si contestata profetie hegeliana a „mortii artei“. Nu e vorba despre disparitia oricarei forme de arta, ci despre trecerea de la faza in care creatia trebuia sa ofere satisfactie estetica la noua virsta a artei ce isi cauta propria identitate, devenind „metaarta“, discurs filozofic. Si ce altceva realizeaza artistii contemporani prin seriile, copiile, ready-made-urile si instalatiile lor decit chestionarea continua a statutului operei de arta: este ea o „re-prezentare“ a realitatii? Este un bun economic ori cultural? Trebuie neaparat sa exprime ceva sau poate sa fie lipsita de orice semnificatie etc.? Teza hegeliana a „mortii artei“ va fi insa nuantata de Danto: astazi, crede filozoful american, constiinta teoretico-artistica inghite spontaneitatea, asa incit „obiectele artistice se apropie de punctul-zero pe masura ce teoria lor se apropie de infinit“. In consecinta, productia artistica a intrat deja in „perioada postis-torica a artei“, in care operele de arta devin autoreferentiale si nu mai urmaresc sa impresioneze ori ca sa faca epoca.

- Bruegel si picioarele lui Icar
Intrebarea obsesiva din Estetica analitica: Arthur Danto ar putea fi formulata astfel: „In ce fel un artefact devine opera de arta?“. S-ar putea raspunde invocind inefabilul frumosului ce se instapineste asupra simturilor noastre. Pentru Danto insa, lucrurile sint ceva mai complicate: „frumos“ poate sa fie si un peisaj, dar si un obiect utilitar (un corp de mobila, sa spunem); dar asta nu le confera automat statutul de „obiect de arta“.

Mai mult, pentru a ne putea exercita judecata de gust, trebuie sa fim, mai intii de toate, constienti ca ne aflam in fata unui „obiect de arta“. „Identificarea“ sa, ca obiect artistic, precede satisfactia estetica si presupune toate asumptiile „lumii artei“.
Privind de pilda Caderea lui Icar de Bruegel, fara sa cunoastem in prealabil titlul, nu vom da atentie perechii de picioare ce se scufunda in apa. Acest lucru ar aparea, in masura in care ar fi detectat, drept un amanunt insignifiant printre imaginile taranului care ara, ale corabiei impozante ori ale copacului monumental si ale stincilor. Tabloul isi va schimba complet semnificatia atunci cind vom afla titlul sau si vom intelege ca in „centrul“ tabloului se afla Icar pe cale sa se inece. Astfel, „acum cind stim care este centrul de interes al tabloului, trebuie sa regindim care elemente au relevanta si care formeaza doar fundalul tabloului“, observa Dragos Patrascu. Vor fi reconsiderate, in acest fel, elementele relevante ale tabloului, anume: picioarele lui Icar si soarele care i-a topit aripile. „Morala“ acestui exemplu ar fi: fara „identificarea artistica“, obiectul nu poate fi transferat din mediul cotidian in „lumea artei“.

Problema identitatii artei intra in cimpul de preocupari al lui Danto in mod accidental. Intimplarea face ca filozoful american sa intre la un moment dat (in anii ’60) intr-o expozitie de arta contemporana in care privirea ii va fi atrasa de Cutiile Brillo expuse de Warhol ca opere de arta. Prin ce difera in fond niste cutii de detergenti stivuite pe raftul unui supermarket de niste cutii (din lemn, e drept) care imita perfect aspectul primelor? In ce consta aici actul artistic? – se va fi intrebat Danto. Problema va fi trecuta din nou prin sita „analizei limbajului“, instrumentul preferat al filozofului american. Lasind la o parte importanta comunitatii de critici, muzeografi si artisti care accepta, astazi, ca niste cutii de detergenti pot sa devina opere de arta, Danto observa un fapt care scapa adesea hermeneuticii artistice. Expunind intr-o galerie un astfel de obiect, Warhol afirma, implicit: „Acestea sint niste cutii de detergenti si nimic altceva“. Dar „este“-le folosit in acest caz nu are o valoare existentiala („cutare lucru este, exista“), si nici una de predicatie („masa este verde“). „Este“-le implicat in actele artistice contemporane apare ca un „este al identificarii artistice“.

- Revolta impotriva realismului
Un alt exemplu oferit de Dragos Patrascu ar putea sa lamureasca mai bine problema identificarii. A spune, de pilda, „aceasta este o suprafata colorata si nimic altceva“ inseamna un act artistic, o identificare artistica, si nu o simpla judecata de constatare (de tipul „cutare lucru exista“). E vorba aici de o revolta, exprimata prin intoarcerea la suportul fizic al picturii. O revolta indreptata contra altor teze estetice, cum e de pilda „realismul“, pentru care pictura trebuie sa reprezinte un fapt obiectiv: o domnisoara la fereastra, rapirea sabinelor etc. Arta se impune si este luata drept „arta“ pe fondul unei atmosfere (sau chiar al unei dispute) teoretice. Bucuria privirii este precedata de „identificarea artistica“ a operei; judecata de gust vine doar dupa acceptarea, etichetarea si interpretarea lucrului din fata noastra drept „opera de arta“.
Tocmai de aceea, „estetica analitica“ a lui Danto ocoleste problema judecatilor de valoare si accentueaza o cu totul alta problema: „Cind ceva devine un obiect de arta?“. Proprietatile estetice („frumosul“, „sublimul“) nu pot fi definitorii pentru arta, observa Dragos Patrascu, pe urmele filozofului american, caci ele tin de „perceptie“, si nu de gindire/teorie.

Lucruri „frumoase“ regasim, de altfel, si printre obiectele naturale ori fabricate. Mai mult, reactia estetica nu poate sa defineasca opera de arta, pentru ca ea survine doar dupa identificarea artistica – dupa ce „stim“ ca acel ceva din fata noastra „este“ o opera de arta. O pozitie evident incomoda pentru orice estetica a frumosului si gustului, dar si pentru simtul comun. O pozitie extrema, care poate fi adecvata artei contemporane (pentru care metaarta, experimentul ori critica sociala conteaza mai mult decit frumosul), dar care nu pare sa fie, totusi, in stare sa lamureasca prea multe din peripetiile istorice ale artelor vizuale. Caci, nu trebuie uitat, teoriile estetice de pina in secolul XX includeau chiar in miezul lor „frumosul“ (definit in diverse modalitati: armonie, perspectiva, forta de iluzionare etc.), ca un criteriu de validare estetica sau de „identificare artistica“, daca ar fi sa folosim sintagma lui Danto. Cu alte cuvinte, „interpretarea“ si „identificarea“ operei de arta erau in acelasi timp o judecata valorica: se „stia“ ca obiectul „este“ artistic nu pentru ca era asezat in muzee sau pentru ca punea la indoiala cine stie ce teza estetica, ci pentru ca era in concordanta cu definitia de atunci a „frumosului“. Iar acest lucru pare sa-i scape lui Danto, pentru care „frumosul“ tine, intr-o maniera reductionista, apropiata de altfel de estetica lui Kant, doar de perceptie si de bucuria simturilor (de „satisfactia estetica“).

In concluzie, teoria artei propusa de Danto spune un „Nu!“ decis frumosului si sentimentului si un „Da!“ ferm limbajului si teoriei. O pozitie criticabila, observa Dragos Patrascu spre finalul Esteticii analitice, exprimindu-si reticenta fata de expedierea unor probleme specific „estetice“ din cimpul filozofiei artei (argumentele autorului fiind fericit completate de analize concrete ale operelor unor Vermeer, Matisse, Rauschenberg ori Oldenburg).
Pe de alta parte, in ciuda ingustimii observatiilor sale teoretice, Danto ramine un estetician care nu poate fi ocolit, mai ales atunci cind ajungem sa regindim tot ce se intimpla in arta contemporana si mai ales resorturile care salta obiectul comun, mundan, in tarimul rarefiat al operei de arta.

DE GAULLE NA ROMÉNIA

VÍTOR BUESCU

DE GAULLE NA ROMÉNIA

Edições BROTÉRIA
Lisboa – 1968

A recente visita do general De Gaulle na Roménia, a terceira ao Leste europeu mas a primeira à família dos “não-ortodoxos”, integra-se, por um lado, na contínua evolução romena para um socialismo nacionalista, caracterizado por uma subtil resistência à U.R.S.S. e por uma coexistência pacífica entre os comunistas desavindos, bem como entre os próprios Blocos antagónicos. Tal atitude corresponde, pois, a um comunismo temperado pelo realismo quotidiano. Foi, aliás, essa a razão pela qual a Roménia não figurou entre os convidados na reunião de Dresda, em 23 de Março p.p., nem na de Moscovo, em 8 de Maio seguinte: a U.R.S.S. não pôde ver com simpatia a posição política da Roménia, de amizade para com todos os Estados socialistas, mas uma amizade igual e sem discriminações, a fim de não acentuar as divisões já existentes. Sem falarmos do profundo fosso russo-chinês, a divisão do comunismo na Europa oriental é patente: de um lado, a Jugoslávia, a Roménia e a Checoslováquia, e do outro lado a Polónia, a Alemanha oriental, a Hungria e a Bulgária; e mesmo este último grupo”ortodoxo” dos satélites só se distingue do outro por um diferente grau de evolução, pois as aspirações populares são as mesmas, só os Governos agem diversamente. Porque não restam dúvidas que a libertação está caminhando, desde 1947, quando Tito afrontou Estaline, e desde que a Roménia se libertou polìticamente da tutela soviética, no que foi seguida há pouco pelos camaradas da Checoslováquia. Embora menos visíveis, outras correntes subterrâneas minam os alicercos do antigo monólito vermelho: o princípio da colectivização da agricultura encontra-se pràcticamente abandonado, e, ao lado da economia estatal, cada vez mais asfixiada, aparece com progressivo vigor a economia ultraliberal do “mercado negro”, cujo êxito lhe confere foros quase legais.
Evidentemente que a posição romena, que traz o selo da subtilidade latina, não pode infringir o dogma anti-imperialista, que a liga à “família” socialista, cujo teratólogico bicefalismo Moscovo – Pequim entende respeitar (e utilizar). Embora o Regime não permita que seja ultrapassada pelos escritores e artistas socialistas, a ditadura do proletariado foi oficialmente patenteada a todas as experiências, o que permitiu abrir hàbilmente a porta à tradição e à latinidade, banidas havia vinte anos. A guerra do Vietname é condenada em Bucareste como provocação imperialista, mas é explicada como uma lamentável consequência da cizânia “familiar” russo – chinesa, o que permitiu ao Regime recuperar a sua autonomia económica, pelo reatamento das relações diplómaticas com a Alemanha ocidental e pela discordância intemerata em relação a Israel. Depois de ter sido atacada pelo “tovaritch” sírio na reunião de Budapeste, em Fevereiro p.p., a Roménia retirou-se ostensivamente e pediu garantias de futuro contra semelhantes ofensas. Por outro lado, a veia nacionalista encontrou ùltimamente uma espectacular manifestação na reabilitação do caudilho comunista Patrascanu, condenado e executado em 1954. Os seus restos mortais serão exumados e transferidos para o Monumento dos Heróis, onde se encontram sepultados os notáveis do Regime, como Ana Pauker, acusadora de Patrascanu, e Gheorghiu-Dej, acusador de Ana Pauker. ..As nossas previsões (ver “Brotéria”, Out. de 1967, pág.409) confirmaram-se mais cedo do que esperávamos.
A constante evolução nacionalista romena, motivada pelo antigo e popular ódio ao moscovita – invasor endémico dos Principados romenos – , encontrou natural compreensão em França, e isto não só graças às afinidades latinas que sempre uniram os dois países numa amizade indefectível, como também devido à chefia do Terceiro Mundo, assumida por De Gaulle. A relutância romena quanto ao Pacto de Varsóvia, corajosamente condenado por Ceausescu, não encontrará a sua réplica no abandono da N.A.T.O. pelo actual regime francês? Essa compreensão levou, com efeito, a um primeiro contacto oficial, há três anos, entre o primeiro-ministro romeno Jorge Maurer e o presidente De Gaulle. As relações económicas, culturais e técnicas ressentiram-se imediatamente a seguir esse contacto oficial: o intercâmbio comercial romeno – francês aumentou em 140%; as relações culturais, facilitadas pelas afinidades linguísticas, traduziram-se na substituição do russo pelo francês, no ensino liceal (onde 65% dos alunos preferem o francês, depois o italiano, o alemão, etc.); por outro lado, o livro francês reconquistou na Roménia o seu antigo mercado, e sete Leitorados franceses funcionam já nas Universidades romenas. Quanto ao lado técnico, um dos aspectos mais importantes é a modernização do equipamento militar com armamento francês.
A visita do Presidente, há muito acordada, inseria-se, pois, num contexto de cordial colaboração, e era tão ansiosamente aguardada em Bucareste, como cuidadosamente preparada em Paris. Infelizmente, em 13 de Maio p.p., na véspera da partida, deram-se inícios da insurreição estudantil em Paris, seguida da vaga de agitação social que está assolando a França de maneira ainda mais grave que em 1936. Depois de longa hesitação, segundo relevou ulteriormente o primeiro-ministro Pompidou, “os seus deveres de Chefe de Estado e a situação internacional da França” decidiram De Gaulle a efectuar a projectada visita à Roménia, de 14 a 18 de Maio, pois ele teve que regressar a Paris doze horas antes do que estava previsto, em virtude da crise académico-social que alastrara no seu país.
Recebido em 14 de Maio no aeroporto de maneira “indescritível” (segundo a sua própria expressão) por um quarto de milhão de romenos alvoroçados, De Gaulle proferiu uma percutante alocução, que havia de ser completada nos dias seguintes por uma série de declarações no antigo Palácio Real, na presença dos dirigentes, depois no Palácio da Assembleia Nacional e na despedida do presidente Ceusescu, no aeroporto. Não é difícil seguir-lhes o fio condutor.
Depois de ter insinuado, na véspera, que as suas próximas declarações se dirigiam para além das fronteiras romenas, pois a sua visita se revestia de uma importância “capital” que ultrapassava o nível bilateral e respeitava “a evolução da nossa Europa”, De Gaulle soube galvanizar logo de início as simpatias romenas ao lembrar o lema “independência, primeiro”, e ao aprovar implìcitamente a política interna romena, pela preferência ao Estado “nacional”. É de notar que a imprensa não “resumiu” as declarações de De Gaulle, como costumava fazer com as dos outros visitantes, mas reproduziu-as na íntegra. A sua essência reduz-se a dois aspectos complementares, ou antes contraditórios. Por um lado, incondicional apoio à aspiração de todas as nações europeias para a independência; apoio esse acompanhado de cerrada crítica à actual divisão em dois Blocos, determinada em Ialta, com os seus consequentes pactos militares e a manutenção de forças de ocupação nos territórios de certas nações satélites. Por outro lado, a U.R.S.S. é considerada a libertadora da Europa e o pilar essencial do continente, o país de onde há-de de partir “o grande movimento de unificação para a paz e o progresso”.
Ora estas constantes francesas correspondem às das autoridades romenas, que não podem deixar de se declarar ligadas (“atadas” seria o termo próprio…) à U.R.S.S., sem a qual podem conceber uma futura organização europeia. Mas resta ainda de saber se a própria U.R.S.S. (que pràcticamente ignorou a visita e as declarações de De Gaulle) concorda com estes pontos de vista, no quadro do “campo socialista” por ela semeado e guardado: as ingerências recentes na Checoslováquia são reveladoras, enquanto o órgão oficial romeno tomava a defesa resoluta do vizinho checo; o socialismo, segundo “A Centelha” (Scanteia), não é só a transformação das condições económicas e sociais, mas também o saneamento das relações internacionais, pela eliminação das “ingerências imperialistas” (sic) e da “diplomâcia do canhão”.
O general De Gaulle aludiu também às afinidades profundas que, acima das distâncias geográficas, dos abalos da história e dos meandros da política, ligam um ao outro os dois ramos do Mundo Latino. Tudo é devido – continua De Gaulle – às excepcionais similitudes de espírito e de coração, que existem entre os dois países. É devido também à concepção que ambas as nações criaram, por instinto ou por razão, acerca do direito de todos os povos, a começar pelos seus, de dispor livremente de si próprios; acerca do princípio segundo o qual o equilíbrio europeu deve construir-se sobre a independência, a personalidade e a dignidade de cada nação. (…) A Roménia e a França entendem aproximar-se, e isso não só na abstracção do sentimento e da inteligência. (…) É preciso cooperar. (…) Do ponto de vista económico, o total dos intercâmbios duplicou (nos últimos três anos). No domínio cultural, uma verdadeira comunidade franco-romena parece desenhar-se quanto ao ensino e às relações literárias e artísticas. No domínio científico e técnico, o intercâmbio é cada vez maior e melhor. Mas a acção comum da Roménia e da França não poderia limitar-se a trocas de mercadorias, de conhecimentos e de especialistas, nem a trocas recíprocas de homenagens cordiais”. Desde que são independentes, e portanto responsáveis perante elas próprias e perante as outras nações, “os dois países são devedores, nos tempos presentes, de um esforço político conjugado, cujo objectivo só pode ser a união da Europa. O estado da divisão do continente, provocada pelas ambições hegemónicas do Reich, é cada vez mais insustentável para os povos do Atlântico aos Urais. E isto tanto mais, que muitos deles se encontraram separados em dois blocos opostos, vergados sob directrizes políticas, económicas e militares que provêm do exterior, com forças estrangeiras no seu território. A guerra fria que sucedeu à divisão da Ialta redundou numa separação artificial e estéril, porventura mortal. Ela é contrária à própria natureza da Europa, que ao longo dos séculos, tendeu incansàvelmente para a sua união. Por conseguinte, já não há, para ela, nem ideologias nem hegemonias que valham mais que os benefícios da “détente”, do entendimento e da compreensão entre as suas partes componentes”.
É verdade que a Roménia não deve ignorar as suas contingências geográficas – prossegue De Gaulle. Ela encontra-se situada “ao lado da Rússia”, à qual está ligada por “certos” laços; mas estas conjunturas locais, “muito longe de serem nocivas”, devem pelo contrário contribuir para a harmonia geral. “O que o nosso Mundo espera de Bucareste, de Moscovo e de Paris, como de Bona, de Roma e de todas as outras capitais, é o grande movimento que o unirá para a paz e o progresso”. A Roménia já teve no passado com a França, “sua amiga de sempre”, alianças defensivas; mas desta vez trata-se para ambas de, em conjunto, ajudarem a Europa inteira “ a construir e a renovar”.
Na assembleia Nacional, o General declarou, nomeadamente, que “na base das relações franco-romenas, fosse qual fosse o curso da História, houve sempre o sentimento de uma comunidade profunda de interesses e uma amizade dada de uma vez para sempre, pois, num continente povoado essencialmente por latinos, Germanos e Eslavos, nós, os Franceses somo desde as origens os campeões do Ocidente, e vós sois a România. (…) Em primeiro lugar, nós, Franceses e Romenos, queremos ser nós próprios, isto é, com a expressão de Eminescu: queremos um Estado nacional, e não um Estado cosmopolita. (…) E isto não só pela razão elementar de que gostamos de ser donos da nossa própria casa, mas também porque acreditamos que são as nações, cada uma com a sua alma e o seu corpo próprio, que constituem afinal, os elementos irredutíveis da vida universal”.

Assim falou De Gaulle.
Simplesmente, o seu visionário apelo à união supra-nacional do Atlântico aos Urais pressupõe a independência das nações europeias. De todas elas. Ora, para a venturosa França, situada na pacata orla ocidental, essa união implica a libertação prévia de “qualquer subordinação atlântica (isto é: americana. N.A.), quer no domínio político, quer milita ou monetário” (segundo os próprios termos do General). O que já está conseguido, em pouco menos de dez anos de regime gaullista. Ao passo que, para a infeliz Roménia – situada na “estrada dos males” (segundo o cronista Miron Costin, falando das invasões bárbaras) – o apelo gaullista pressupõe o abandono, da parte da U.R.S.S., da sua “missão” comunizadora do Globo. Como esperar tal milagre, no Mundo doente de hoje? Aqueles esfumados “certos laços” que, segundo o diplomata De Gaulle, devem continuar a ligar a Roménia à U.R.S.S., constituem o nó do problema. O nó górdio, num Mundo sem Alexandres Magnos…O inocente “contaco estreito” recomendado por De Gaulle em relação à U.R.S.S., lembra aos Romenos o abraço do urso da fábula, tão “estreito” e apertado que acaba por asfixiar…O caso suicida da Hungria é ainda vivo na memória de todos nós. E os heróicos esforços checoslovácos estão patentes, perante um Ocidente admirado, e um Oriente espavorido. O próprio De Gaulle viu-se na necessidade premente de abreviar a sua visita, afim de fazer face ao perigo “teleguiado” por uma “organização internacional” que, pelas palavras do Primeiro Ministro, “significaria a guerra civil e o fim de toda a Liberdade francesa”. Em 22 de Maio último, só onze votos fizeram inclinar o fio da balança para a Liberdade ameaçada. Até quando?
Neste contexto confrangedor, que esperar quanto aos animosos esforços nacionalistas do actual Regime romeno, e quanto às perspectivas de liberdade na Dácia Trajana, a qual recebera o epíteto de Felix antes da bárbara invasão eslava?
Europa, do Atlântico aos Urais? Ou Eurásia, do pacífico ao Atlântico) …Deus proteja o nosso Mundo!

DA POESIA DA RESISTÊNCIA ROMENA

Victor Buescu

DA POESIA DA RESISTÊNCIA ROMENA

ENSAIO
COM 10 POEMAS INÉDITOS DE “JOÃO, O PORTA – BANDEIRA”
E “ONOFRE, O APRISIONADO”

Lisboa
1957

Dificilmente se poderia encontrar hoje um tema mais interessante, pela sua actualidade trágica, do que a poesia da Resistência romena, pelo que se me impôs como um piedoso dever. Na verdade, os dez poemas que hoje vêm a lume – numa versão portuguesa que desejei muito fiel ao original – foram-me enviados clandestinamente, por um patriota anónimo, a fim de se tornarem conhecidos no Ocidente por meio da imprensa e da rádio, como símbolo da resistência romena ao invasor.
O carácter combativo desta poesia “engagée” enquadra-se perfeitamente dentro da evolução da literatura romena contemporânea e traduz a vaga de indignação que estremeceu, e estremece ainda, a juventude universitária portuguesa e o País inteiro, em face das atrocidades cometidas ùltimamente pelos ocupantes, nas Hungria. As vozes patéticas dos poetas romenos, que conseguiram quebrar os muros do cárcere e chegar à sorridente praia lusitana, erguem os seus acentos acusadores não só em nome da Roménia martirizada, mas também no da Hungria, Polónia e restantes países oprimidos pelas forças do Mal.
Na exposição que se segue, procurei abster-me de comentários que possam sair do âmbito meramente cultural, para deixar falar – gritar – os poetas. No entanto, a sua dor é tão lancinante e a mensagem é por vezes tão incandescente, que teria sido impiedade tentar atenuá-las.
Infelizmente para o meu País, o tema dos versos de Resistência não é novo. Com efeito, a Roménia pode comparar-se a uma ilha latina encravada por Trajano num mundo alógeno e hostil. Abandonada depois por Aureliano aos numerosos invasores asiáticos e esmagada, durante séculos, pela rivalidade russo-turca, a Roménia não conheceu senão sessenta e sete anos de liberdade na sua atormentada existência: desde a guerra da independência contra os turcos, em 1877, à ocupação pelas hordas russo-mongólicas, em 1944. Como conseguiu este país, em sessenta e sete anos, organizar-se e chegar a criações universais nos domínios da ciência, da literatura e da arte, – eis o milagre. Milagre comparável a esse outro que deu que pensar aos historiadores do mundo moderno: o da própria existência do povo romeno, que atravessou a agitada noite medieval para surgir nos alvores da idade moderna ostentando o nobre brazão latino, tal como se reflecte no seu idioma, no seu nome e em toda a sua civilização, popular e culta.
O tema da “Resistência” é, pois, um tema velho no povo romeno, sempre oprimido. Na verdade, a mais característica criação do lirismo popular romeno é a doina, poema da dor e da saudade dos romenos de todas as épocas. O próprio poeta popular a definiu primorosamente na célebre versão recolhida entre o povo por Alecsandri:
Doina, doina, doce canção
Quando te oiço, fico absorto;
Doina, doina, melodia de fogo,
Quando soas fico imóvel…
…………………………….
Doina digo, doina suspiro,
Só a doina é que me ampara;
Doina canto, doina murmuro,
É só da doina que eu vivo.

Depois deste fragmento de doina popular, eis agora um exemplo de doina culta: a famosa “Doina” de Eminescu, o poeta da raça romena, publicada em 1883. Como se verá, em 1883, como em 1957, trata-se dos mesmos invasores russos, o que concede a este poema em ritmo popular uma actualidade pungente:

Desde Nistro até ao Tisa,
Lamentou-se-me o romeno
De não poder já mexer-se
Com tanto e tanto estrangeiro.
Desde Hotin até ao Mar,
Vêm cossacos a cavalo,
Que desde o Mar a Hotin
Atravancam-se os caminhos…(1)
etc.

A poesia da Resistência, pois, é ingénita tanto para o poeta romeno popular, como para o culto. Assim, os poemas chegados da Pátria proibida inserem-se na linha tradicional da lírica romena, a linha da doina, a linha da dor e da esperança, a linha da fé cristã e do protesto contra a barbárie.
Os dez poemas que recebi em 1950, e publiquei em 1952, pertencem a dois poetas criptónimos, com pseudónimos simbólicos: “João, o Porta-Bandeira” (Ion Stegaru) e “Onofre, o Aprisionado” (Onofre Puscariasul). Enviou-mos clandestinamente um compatriota que assinava as poucas linhas anexas com o pseudónimo de “Jean Jacques”. Dizia-me ele: “ Como sei que lhe interessam as coisas da Pátria, envio-lhe (…) versos escritos pelos poetas da Resistência romena à bestialidade bolchevista (…).Guarde-os e difunda-os o mais possível nos círculos romenos da emigração.” E “Jean Jacques” acrescentava: “…Espero mandar-lhe em breve outras produções semelhantes.”
Esperei dois anos – em vão: o pobre “Jean Jacques” foi, como depois soube, preso e talvez morto. Embora a difusão destes poemas representasse um real perigo para a minha família, resolvi publicá-los com uma apresentação minha, num pequeno volume de capa enlutada, impresso há cinco anos em Lisboa. O aparecimento do livro como que electrizou toda a diáspora dos exilados romenos: na falta de ecos do País agrilhoado, pode dizer-se que os dez poemas anónimos representaram um momento importante na vida cultural dos refugiados romenos pelos cinco continentes. Numerosas emissoras do mundo livre transmitiram-nos na hora romena comentando-os; e a maioria das quase cinquenta publicações romenas do exílio prestaram, e prestam ainda hoje, comovida homenagem aos poetas criptónimos da tragédia romena, editados em Portugal.
Em 17 de Agosto de 1952, a rádio de Roma falava à Roménia acerca deste volume como um de “uma poesia autêntica, igualmente válida no plano estético e no das contingências políticas; poesia dos sofrimentos indescritíveis aos quais a bota do dominador moscovita submete o pobre país (…). Dez poemas em que, em forma variada mas sempre nobre, todo um povo atormentado chora, espera, reza, amaldiçoa – sobretudo amaldiçoa – a hidra bolchevista invasora”.
Na sua revista Exílio (1), publicada no Rio de Janeiro, o poeta romeno Stefan Baciu escrevia entre outras coisas, em 1953: “…Esta mensagem que nos faz estremecer, devida à revolta e ao talento de dois escritores romenos, vem da Pátria, da Pátria ocupada (…). Os dois vates (…) têm a oportunidade (…) de dizer ao mundo livre o que é forçoso calar na Roménia. Além do valor documental dos poemas, além da sua beleza simplesmente selvagem, pensamos que a sua importância reside no facto de que, pela sua publicação no Ocidente, foi aberto caminho livre à poesia romena oprimida (…). João, o Porta-Bandeira e Onofre, o Aprisionado (…) representam todos os escritores que não quiseram lamber a bota do ocupante; (eles) enviam dos Cárpatos a verdadeira imagem e a verdadeira voz da Resistência. A nossa saudade, a nossa dor, nunca estarão à altura destes cantos que, vindos de Lisboa, vêm de um país latino (…). Um dia, quando todos pudermos escrever os nossos livros na Pátria (…), estes poemas constituirão o documento autêntico da insubmissão do escritor romeno…”
Mais recentemente, há dois anos, a revista O Exílio Romeno de Munique (1), falando de uma série de palestras na emissora local acerca da perseguição à Igreja dos países cruelmente chamados “satélites”, sublinhava o aspecto profundamente cristão do livrinho de capas negras, e continuava: “ …A perseguição à Igreja não conseguiu, porém, banir Deus do coração dos fiéis. Mas, o mais assombroso testemunho é “a poesia de um aprisionado”, a qual não só nos apresenta o martírio do país mas também nos ajuda a compreender a fé mística do cristão da Igreja oriental. É uma das poesias de “Onofre, o Aprisionado” (…) do pequeno volume publicado pelo Prof. V. Buescu em Portugal, e que foi recitado na íntegra, pela segunda vez, na emissora de Munique.”
Embora não tenham decorrido senão cinco anos sobre a sua publicação, os dez poemas foram já traduzidos em inglês e hoje em português, estando em preparação uma versão alemã. Em inglês foram traduzidos pela própria Princesa Ileana, que baseou neles várias conferências proferidas nas Universidades americanas. Por outro lado, esta edição portuguesa sai hoje em Portugal e Brasil. Desta maneira, a audiência dos dois poetas romenos vai-se alargando cada vez mais. Posso, pois, esperar ter correspondido ao apelo de “Jean Jacques” para tornar conhecido no mundo livre o grito da Pátria amordaçada.
Urge fazer uma justa distinção entre estes dois poetas e o binómio lírico mais conhecido da Resistência francesa, Louis Aragon (Jean Noir) e Jean Cassou (François la Colère): enquanto que estes não passaram de meros mercenários ideológicos de Moscovo contra o ocupante fascista, os dois criptónimos romenos exprimem fervorosamente não o credo de um Partido imposto pelo estrangeiro apátrida e ateu, mas sim a dor e a fé de um povo de vinte milhões de compatriotas escravizados, a dor de dez povos altivos, com mais de cem milhões de europeus oprimidos e mortos pelos mongóis, pelo crime de amar Cristo e a Pátria.
Dos dois poetas romenos, “João, o Porta-Bandeira” revela-se um novo (e requintado) Beldiman da “Dolorosa Tragédia” romena, um cronista virulento e indignado no sentido do juvenaliano Facit indignatio versum. A brasa incandescente da sua revolta nem sempre teve o tempo de se cristalizar no puro diamante da poesia sublimada (ocorre lembrar que o poema intitulado “Bucareste, Abril de 1950” foi composto poucos dias antes de me ter sido enviado por Jean Jacques, em 11 de Maio). O tom predominantemente satírico situa a lira de “João, o Porta-Bandeira” mais no género didáctico, do que no lírico pròpriamente dito. Uma sátira truculenta no fundo, e engenhosamente firme do ponto de vista formal, dando uma imagem vivíssima dos sofrimentos do País e da decadência da sua Capital (1):

BUCARESTE, ABRIL DE 1950

Da voragem dos pecados,
Dentre o turbilhão dos crimes,
Não te reconheço já, cidade
Capital da minha Pátria!

Hoje, lá por onde andavam
Os cortejos dos Voivodas,
Passam vendilhões da pátria
E sandeus de boca aberta.

Onde Príncipes, Princesas
Saboreavam os licores,
A má raça – qual aranha –
Arma teias aos cristãos.

Junto aos nossos velhos altares
Crescem tascas, cogumelos,
E em todas se amesenda
A peste galiciana. (1)

Hoje, em Cortes principescas
E em paços senhoriais,
Para onde quer que olhemos
Só as caras dos malditos.

Sobre as paredes vermelhas,
Invasores e criminosos;
E, em cima deles, Barbudos (2)
Sábios (3) e Geniais (4);

Quando querem passeiam-nos,
Quais relíquias em procissão,
E as famintas turbas berram
Em coro, como sapos no charco;

Espreitam em redor ouvidos,
Rostos prestes à denúncia;
Mudam toda a lei antiga
E enfartam-nos de asneiras

Juntam as crianças tenras
Nos asilos do Partido,
Para os transformar em escravos
Da matilha opressora;

Gota a gota, a peçonha
Lhes instilam lentamente
Para nas nuvens erguerem
Os Sovietes “gloriosos”,

Para que dos pais se esqueçam,
E da Pátria e da Fé;
E, escarnecendo as coisas santas,
Se benzam perante a fera.

O mais velho é coagido
Pela fome, pelo medo;
E se não se submeter,
Levam-no para o calaboiço…

Desde o fundo dos subúrbios
Ao coração da cidade
Vêm dilúvios de hossanas
Às feras, à calamidade.

Quilómetros de trapos
Enfeitam postes e paredes,
Glorificando os brutos das estepes
E os esbirros do comando.

Tu, não tens camisa nos ombros,
Nem sandálias nos pés, -
Eles ostentam longos panos
De bandeira engalanada.

Com as “bichas”, tu definhas
Por uma cebola, um queijo:
E os filhos dos “bravos” povos
Mal se mexem com as banhas!

Corujas pairam sobre as ruínas
E desertas são as praças;
Pó nas montras, e nas ruas
Andam esgares inimigos.

Os esgares, o idioma
Grunhido por eles, os donos,
Querem que os romenos
O aprendam a grunhir.

Eles, a nossa fé perseguem,
A língua ancestral, as canções;
Qual montanha, a humilhação
Faz vergar as nossas costas.

Já não vês pelas avenidas
Gente em vagas palpitantes:
A ninguém já lembram hoje
Os passeios e folguedos.

Riso e música enebriante,
Ou festanças noite adentro
Logo foram esquecidas
À vinda dos “salvadores”.

Onde estás, ó Búcur (1), para
Veres os teus rebanhos bípedes,
Tosquiados e mungidos,
Que bem lhe fica o jugo?

Para ouvires os carneiros
E os burros a berrarem
Que os lobos são os paladinos
Da paz, da vida e da justiça!

Onde estais, ó veneráveis
Fundadores do nosso Estado?
Bandos de estrangeiros reles
Arruínam o que nos legastes!

Arruínam toda a tradição,
Voltam tudo ao contrário,
E cortou-nos as saídas
O nosso ímpio inimigo!…

…Da voragem dos pecados,
Dentre o turbilhão dos crimes,
Não te reconheço já, cidade
Capital da minha Pátria!

Como todos os verdadeiros poetas, “João, o Porta-Bandeira” farejou o futuro com as suas sensíveis antenas e previu a “destalinização” dos nossos dias, neste poema em que a cruel ironia só é igualada pela força imprecatória digna da “Doina” eminesquiana, numa metrificação que lembra a obra-prima da poesia popular romena, “A Cordeirinha”:

NO ANIVERSÁRIO DO “GENIAL”

Hoje, que fazes anos,
Não sei que presente
Poderia ofertar-te:
Só me resta a pele,
Roxa, sobre os ossos.
Desde que puxo aos varais
E que gemo sob a canga,
Toda a abastança
Se derreteu: neve.
Piam as corujas,
Crescem para a vingança.
E tu, sùbitamente,
Ó minha tímida voz,
Cresce como o abeto,
Cresce como a montanha,
Recolhe em teu caminho
Dádivas para o inimigo:
Choro de criança orfã,
Voz extinta de mãe,
Embargada em lágrimas,
Pranto de exilados,
Ódio de um país inteiro.
Erguei-vos do tempo,
Maldições inúmeras,
Esmagai a nossa época,
Amaldiçoai-a
Com alcatrão em chamas,
Pela cruel fera
Que gerou no mundo;
Criou-se com cicuta
E, erguendo-se no alto,
Conspurcou o sagrado
E quis com seus chifres
Destruir o mundo.
Fio ténue de voz
Cresce pouco a pouco,
Como uma nascente
Se torna em torrente
Ao descer dos montes.
Sê machado, e cai
Na fronte da fera.
Cresce dos bosques, cresce
Das florestas arrasadas,
Das sondas esgotadas,
Das searas loiras,
Que vão para estranhos;
Cresce das ruínas,
Dos cárceres fundos,
Onde jaz em ferros
Um País altivo,
Prestes a morrer…
De entre lívidos seres,
Ergue-te e abre
As asas como as águias
Por sobre inimigos
-Sujas sanguessugas,
Por sobre fronteiras
Que eles nos roubaram;
Passa cidades e aldeias,
Onde ainda se ouvem
Preces de cristãos
Na noite, em surdina;
Passa praias estranhas,
Passa, como puderes,
Estepes infindáveis
E sombrias águas;
Passa sobre obstáculos,
Passa bosques, vilas,
Procurando atalhos
Feitos sobre a neve;
Passa longe…longe!
Voa como nas lendas,
Até vislumbrares
Cortes imperiais
Sem Príncipe Encantado,
Bárbaros conventos
Privados de altares,
Privados de Deus.
Voa, ó minha voz,
Ergue-te, levanta-te,
Esmalta as tuas asas
Em celestes brasas;
E, como um relâmpago,
Cai em labaredas,
Cai sobre a cidade,
No covil da fera.
Extinga-se-lhe a raça
E o seu nome permaneça
Ultrajante praga
No País, para sempre!
Jazam na poeira
Todos os seus saques!
Que o pó e a poeira
Engulam sua pátria!
O meu ódio feroz
Queime o Satanás;
Que o raio fulmine
O irmão de Ana (1)
E uma voz do Céu
Comece a dizer
Para o dia dele
- Dia de Satanás,
Irmão de Ana –
Que espécie de presente
Lhe mandou João (2).

O mundo fraudulento dos vendidos, os chamados “activistas” e “agitadores”, também não escapa ao escalpelo incisivo do poeta:

NO COMÍCIO
Aos “activistas” e “agitadores”

Olhai, gentes, como se nos mostra
Aquele que o “povo” quer;
O melhor e mais caro amigo,
O grande, o Libertador (1)
Farol da Ciência única,
O mais brilhante estratega,
O pedagogo e o dirigente
Do trabalho em todo o orbe;
O penhor da nossa paz,
O mais clarividente juízo,
A mais alta sapiência
Que jamais existiu;
O mais esclarecido guia
Para o progresso e felicidade,
O maior Génio que
Apareceu na humanidade,
Mais adorado do que Ele não há outro
Debaixo do sol, ou das estrelas;
O mais justo, o mais terno, o mais forte,
O mais…mais, em tudo!
Vá de berrar, populaça,
Chama-O, grita para que te oiça;
Organiza competições operárias,
Cai a quatro patas, sua!
Glorifica-O mais ainda,
Entoando-lhe hossanas,
Talvez Ele incline o ouvido
Para os teus sofrimentos…
Arrasta-te como um réptil,
Baixa a fronte na poeira,
Esquece a tua língua e tradições,
Esquece-te que és romeno;
Esquece a campa de teus maiores,
As batalhas que travaram,
Esquece as danças e doinas,
Esquece a chama da tua fé.
Tudo o que amaste até ontem
Suja-o hoje no teu ódio:
Assim exige a nova Lei,
O alto dogma que Ele ensina!
Crónicas, imagens sacras, cruzes,
Cospe-as e calca-as aos pés;
Tudo isso agradará
Às hordas “libertadoras”.
Ri-te dos momentos sublimes,
E zomba dos juramentos,
Do amor e do sonho…
Berra, povoléu, levanta
Até às nuvens o carrasco, –
Porca turba de vendidos!
Pelos charcos lamacentos
Arrastai-vos como vermes…
… Raios partam os lacaios!

Mas, ao lado desta incontestável vis satírica que faz dele um “destalinizador” avant la lettre, “João, o Porta-Bandeira” envia-nos também um lirismo do mais puro quilate, com versos que valem poemas, na admirável elegia “Pelo nevoeiro”. Paira nela toda a atmosfera sufocante da Roménia de hoje. O poeta tacteia como os cegos, numa solidão que toma proporções de símbolo: a solidão romena, solidão latina em face das barbaridades asiáticas. E o patético grito final: “Até quando, quando, Senhor, este nevoeiro?…” – é o nosso grito, o dos romenos de além e de aquém Cortina de ferro:

PELO NEVOEIRO

De rastos, na lama, sufoco no nevoeiro;
Sem fim, esta caminhada uma vida parece…
Sofro, como em sonhos, quando parado é o voo;
Parecem chumbo as asas, penedos os pés.

Em redor, ladra roufenho o deserto;
À lareira do coração fumega a chama
Que gélido vendável tenta apagar;
Rastejo pelo lodo, o jugo mais cingido.

Mais e mais sòzinho, tacteio como os cegos;
Grita em mim a saudade, qual corvo no matagal;
A doina, agrilhoada, ruge como fera,
E o bosque, de cera vestido, geme em surdina.

Dia após dia se estreita, entre rochas, a minha vereda…
Ó alma, torna-te cobra, torna-te cana flexível!
Sepulta a tua vontade que se esvaiu com os anos:
Repartirás depois, com as águias, a glória.

Repara! Alva réstia outonal reluz ao alto!
Cume de nevada serra – a Tua fronte, Senhor!
Ou foi ilusão, o que em mim floriu?
…Até quando, quando, Senhor, este nevoeiro?

Se os versos de “João, o Porta-Bandeira” constituem, pelo seu realismo cru, um verdadeiro libelo de acusação, a poesia de “Onofre, o Aprisionado” é mais decantada, mais subtil, mais artística: trata-se sem dúvida, de um grande, um muito grande poeta. Os seus seis poemas patenteiam a técnica perfeita do verso; as rimas raras ou engenhosas (forçosamente sacrificadas na nossa versão portuguesa); as assonâncias audaciosas dos poetas autênticos; o vocabulário pujante; a metáfora impressionante (“um trago de liberdade”, “as almofadas de requeijão”, “a guilhotina do silêncio”, “as rosas do sangue”, etc.); o epíteto novo e justo dos criadores (“a Fome esquálida”, “dias pestilentos, dias estagnantes”); a imagem plástica evocadora até a obsessão (“Da lua vinha um fumo de incenso”); o abstracto concretizado como só um grande poeta é capaz de realizar; o privilégio demiúrgico de poetizar o prosaico, pelo enobrecimento do léxico cotidiano (“meretriz”, “ventre”, “terrina”, “percevejo”, “piolho”, etc; adquirem nos seus versos um inegável nimbo poético); enfim, o contínuo, o magistral entrelaçar do prosaico com o poético, transfigurando a matéria bruta em poesia, que chega aos mais altos cumes, em alegorias aladas e em melodiosas harmonias, das mais belas que jamais se escreveram em língua romena (“As Suas mãos – de Jesus – eram como lírios sobre um túmulo, Os olhos profundos como bosques…”). Todos os temas tratados pelo Poeta constituem outros tantos símbolos das realidades permanentes ou actuais do povo romeno. Assim, o ímpeto dos romenos para as criações universais, periòdicamente despedaçado pelos invasores, durante séculos, nunca foi mais comovidamente expresso do que nestas quatro quadras do singelo poema:

CLICHÈ

A vida estende as suas asas
Para horizontes virginais.
Mas tu, ó vento, ris-te delas
E despedaça-las n’areia.

Como ardem em sagrada chama
As nossas crenças e revoltas!
E que feias são as colheitas:
Lixo, farrapos e poeira…

P’rà costa, brancas velas se dirigem,
Desprezando as falésias;
Mas, ao atravessar as tardes,
Quebram-se, inocentes, num iceberg.

Ai, a lança do cavaleiro andante
Hão-de chorá-la todos os moinhos,
E ao vento crescem as forças
Para os caídos das alturas…

Da mesma maneira, os compadres da solidão do poeta na sua cela simbolizam a cósmica Solidão romena naquela “encruzilhada dos impérios mortos”:

COMPADRES DA SOLIDÃO

Meus bons amigos da solidão,
Quando a cela se enche de trevas:
Irmão percevejo, comadre ratazana,
Tiazinha barata.

Pulga, ó pulga, mais leve que o vento,
De ar ferrada, bailarina do azul;
Uhú, percevejo, pesadão da terra,
Ponderado e grave como um burguês,

E tu, fraternal bicharada,
Arranhas, piolhos, carochas,
Só vós, das paredes sombrias,
Andais com corações irmãos
Pelas minhas horas envenenadas!

E tu, ratinho poeta,
Aventureiro e boémio,
E tu, vagabunda carocha,
Cúmplices das trevas: eu vos invoco!…

Quando a guilhotina do silêncio
Poisa seu grume terrível no pescoço,
Compadres! Irrompei, de todos os lados,
Fazei companhia ao meu túmulo.

Aranha, tece para mim também
Uma lágrima na tua teia;
Vem, piolho, vem e bebe,
A minha alma, o meu lamento.

Chupai-me o sono, as tristezas
E a minha esperança insaciada,
Meus bons camaradas de cela,
Roam as minhas noites, bebam-nas.

Tu, percevejo. Suga, suga a fartar
As rosas do meu sangue, espinho por espinho,
E tu, ratazana, vem dizer-me
A que sabe a minha dor,
E a que cheira: a flor? a veneno?
O meu coração doente…

…Encruzilhada onde a Roménia se encontra, solitária “como no oceano um atol”, e onde o romeno canta, há séculos, a triste doina do seu destino histórico-geográfico: “os meses para mim não passam nos calendários, A minha ilha não figura em nenhum mapa”, exclama o Poeta no poema obcecante intitulado

DIAS

Terça, quarta, sábado, segunda,
Dias neutros, amorfos,
Como espesso nevoeiro
Por sobre os abismos.

Bom dia, cela,
Bom dia, grades!
Pudesse eu quebrar-vos nas fauces, como um molosso!
Quem dera rasgar-te, cela, c’os dentes!

Quedo-me no tempo terrìvelmente vazio,
Com os pés em séculos líquidos,
Como no oceano um atol
Batido por tórridos ventos.

Cadeia, cadeia, danada cadela,
Como o meu coração te incendiaria!
Vida, vida de fora, como
Danças de roda nos meus sonhos!

Terça, quarta, sexta…Que dia é?
A semana é um monstro morto,
Os meses para mim não passam nos calendários,
A minha ilha não figura em nenhum mapa.

Segunda, quarta, quinta…Vão para o diabo,
Dias pestilentos, dias estagnantes!
De aqui, da caverna do século,
Quem vos seguiria as negras centenas?

Simbólica, também, é a fome do Poeta aprisionado, que é a fome da Roménia cativa; a “estrela de cão” do Poeta é a própria estrela do romeno, fadado para construir na areia e constantemente afastado do festim da vida universal, para o qual as suas qualidades inatas lhe garantiram um lugar de honra:

FOME

O cadeado gemeu em todo meu ser.
O guarda destrancou a porta
E na cela ficámos
Eu mais a Fome esquálida.

Sòzinhos, ficamos frente a frente
Vejo-a, como numa névoa,
Despir-se toda, sem pudor,
E dançar a dança do ventre.

Pudesse eu esmagar-te, meretriz,
Visão de ossos e pele!
Mas este braço é de trapos
E os dedos já não me pertencem…

As papas rançosas de milho
Parece terem sido em sonhos,
Os dentes ainda querem morder
A terrina e a colher sem cabo.

Com a língua áspera, de gato,
Lamberia o leite amarelo da parede;
Ai, estas almofadas de requeijão!
Lá fora, as estrelas parecem pêras maduras…

Era capaz até de roer a caliça dos cantos,
De sugar a ponta do colchão!
Abre-te, fogão, como uma fonte
Gorgolejante de mel…

Porque não aparece uma luz,
Para ver surgir à porta da cela
Nossa Senhora com uma grande terrina
Cheia de sopas de leite?

Meu Deus, como outros se devem banquetear!
Quantos montões de ossos e de migalhas…
Ai, minha estrela de fera, de cão,
Com que me fadaram os santos nas alturas!

Os gritos da sua fome ascendem a um misto saudosisto-sensualista que toca as raias do desvario, no poema:

AVIDEZ

Às vezes, de entre muros severos,
Roubava pelas grades do portão
Um retalho da rua ou alguma mulher
De boca mais vermelha que um gerânio.

Ah, uma bebedeira numa tasca perdida,
Uma vadiagem p’lo cais, até madrugada,
E o amor levantado pelas axilas
Abraçado, mordido…

De noite, sobre a mão que quer afagar,
O pão de cevada e farelo
Palpita vivo, como um seio
Negro, ardente…

Mas, não! Esta cela maldita
Aperta-me o pescoço, sufoca-me.
Ò noite, gostaria de sorver a tua borra amarga
E a tua carne fria, de espuma!

Apetecia-me mandar pela goela abaixo
Um trago de liberdade e de luz,
Como bagaço que embriaga,
Como cachaça.

Desvairado, o olhar segue pelo postigo,
Como das profundezas dum fosso,
A ver a menina lua ganindo,
Violentada pelos choupos.

Enfim, no seu poema mais impressionante, o Poeta mortificado na sua cela compara-se a Jesus crucificado. A imagem reveste amplidão de símbolo, pois o Jesus da cela é a própria Roménia, cuja fé em Deus sai reforçada do presente martírio:

ESTA NOITE, JESUS…

Esta noite, Jesus veio à minha cela.
Ó, que triste, que alto estava Cristo!
A lua entrou após Ele na cela
E mais alto O fez, e mais triste.

Sentou-Se a meu lado, na esteira.
-“Põe a tua mão nas Minhas chagas”.
Nos artelhos tinha estigmas e marcas de ferrugem,
Como se alguma vez houvesse trazido grilhetas…

As Suas mãos eram como lírios sobre um túmulo,
Os olhos profundos como bosques.
A lua derramava-Lhe prata pela túnica,
Prateando-Lhe nas mãos antigas feridas.

Suspirando fundo, estendeu os Seus ossos cansados
Sobre a minha esteira roída pela vermina.
No sono irradiava luz, e as grossas grades
Sombreavam a Sua alvura.

Levantei-me da parda enxerga:
-“Senhor, de onde, de que tempos vens?”
Jesus levou devagarinho um dedo aos lábios,
Fazendo-me sinal para me calar…

A cela parecia montanha, parecia calvário,
E pululavam piolhos e ratos;
Sentia a cabeça tombar-me nas mãos
E adormeci um milhar de anos…

(1) —————-M. Eminescu, Poesias; selecção, tradução e notas de Victor Buescu; colaboração de Carlos Quierós: Lisboa, Ed. Fernandes, 1950.
(1) Exil, Rio de Janeiro, I (1953), nº.2, págs. 49-50.
(1) Exilul Românesc, Munique, I (1955), n.º 10, pág.9.
(1) A versão dos dez poemas incluídos neste trabalho foi amàvelmente revista pelo poeta Tomás Kim – o nosso colega Joaquím Tomás Monteiro Grillo – a quem ficamos muito reconhecidos.
(1) Invasores vindos da Galícia (Polónia) – Todas as notas relativas aos poemas pertencem ao tradutor.
(2-4) Alusão, repectivamente, a Karl Marx, Lenine (?) e Estaline.
(1) Pastor lendário, que terá fundado Bucareste
(1) Ana Pauker, a “Passionária” romena, hoje em desgraça.
(2) João (o Porta-Bandeira).

Amintiri din copilarie de Ion Creanga

Prefata editiei in limba portugheza, ingrijita de Prof. Victor Buescu

Prin publicarea astăzi a Amintirilor lui Creangă ca cel de al şaptelea volum al colecţiei Lectoratului Român din Lisabona, nu fac altceva decât să-mi împlinesc promisiunea făcută la nota despre autorul nostru, în 1946, o data cu publicarea volumului „Noi Nuvele Româneşti”.
Datorită povestirii care figurează în acea antologie (pg. 15 – 26), Ion Creangă nu este un nume total necunoscut cititorului portughez, care a avut întretimp prilejul de a citi altă povestire de acelaşi autor, în „Lumea Literara” din 1–2-1947. Şi pentru ca cel mai neaoş dintre prozatorii români să fie prezentat în Portugalia într-un mod competent, m-am îndreptat către cel mai important exeget al său: Jean Boutiere, profesor de limbă şi literatura română la Sorbona, autor al celui mai bun studiu despre scriitorul nostru. (1) Această colaborare ne onorează, şi eu nu puteam să nu-i adresez cele mai sincere mulţumiri, în numele tuturor cititorilor săi portughezi.
Să-mi fie permis, înainte de a-i ceda cuvântul, să las la o parte modestia vechiului meu elev şi bun prieten António Ruivo Mousinho, pentru a spune cât de mult îi datorează această versiune portugheză. Deoarece, dacă iniţiativa şi exactitudinea traducerii îmi aparţin (2), trebuie să i se facă dreptatea de a preciza că a fost el cel care, timp de trei ani, s-a consacrat cu dragoste şi perseverenţă muncii de a găsi corespondenţa portugheză  la unul din textele cele mai dificele, uneori chiar intraductibil în virtutea intensităţii sale expresive şi a caracterului local.
Doresc de asemenea să-i mulţumesc colegului şi prietenului meu Dr. Jacinto do Prado Coelho,de la Facultatea de Litere din Lisabona, care a avut amabilitatea de a citi traducerea noastră şi de a sugera o serie de corecturi foarte fericite, mai ales în legătură cu vorbirea populară – mă felicit pentru că am putut recurge la studiosul si penetrantul cunoscător al lui Camilo, magul vernaculismului portughez.
O ultimă mulţumire o aduc, în sfârşit, acestei artiste a creionului care este Maria Almira Medina, a cărei expoziţie recentă mă dispensează de a o prezenta; delicata ei sensibilitate, manifestată de asemenea în volumul de versuri „Distanţa”, a reuşit o serie de desene graţioase care împodobesc această carte de aur a literaturii româneşti.
Doresc acestei cărţi acelaşi succes ca cel din Italia (1), pentru şi mai marea glorie a genialului Creangă şi pentru aprecierea justă în Portugalia a valorilor culturale ale României.
Victor Buescu
Lector de Limbă şi Literatură Română
la Facultatea de Litere din Lisabona

(1) J. Boutière, La vie et l’oeuvre de Ion Creanga, Paris, Gamber, 1930.
(2) De asemenea şi notele.
(1)  Ion Creanga, Ricordi d’infanzia, trad. Di A. Silvestri-Giorgi: Firenze, La nuova Itália, 1931. –  Franţa va avea în curând două versiuni ale Amintirilor din copilărie, una de Yves Auger, profesor la Universitatea Română din Cluj si de J. Boutière, profesor la Sorbona, care a avut bunăvoinţa de a ne comunica Prefaţa, scrisă pentru această carte

Ciulinii Baraganului de Panait Istrati

PREFAŢĂ la editia portugheza, ingrijita de Prof. Victor Buescu

Cazul lui Panait Istrati este elocvent în ceea ce priveşte destinul ingrat al literaturii române, care, scrisă într-o limbă de circulaţie redusă, este condamnată să rămână înăuntrul sferei restricte ale unei singure ţări, în ciuda maturităţii sale din ce în ce mai accentuate. De aceea opera lui Panait Istrati (care este unul din cei mai buni romancieri români, dar nu cel mai bun), având norocul să fie redactată într-o limbă universală ca franceza, îl face cel mai popular prozator român din întreaga lume.“Istrati este un mare scriitor, poate chiar cel mai mare nuvelist european dupa Maxim Gorki, dar nu e cel mai mare scriitor român. Chiar dacă lăsam la o parte un romancier genial ca Liviu Rebreanu, există mai mulţi scriitoriu români contemporani care sunt cel puţin la fel de valoroşi ca Panait Istrati: avem, de exemplu, pe Mihai Sadoveanu, Cezar Petrescu, Ionel Teodoreanu, Pavel Dan, etc.” (M. Eliade). Deplorând acest handicap organic pe care literele româneşti îl cunosc datorită obstaculului lingvistic, şi dorind să fie contrabalansat printr-o campanie intensă de traduceri (ceea ce a fost făcut doar în mod sporadic), trebuie să ne felicităm, ca Români şi ca Europeni, că proza plină de forţă a lui Panait Istrati se găseşte la dispoziţia tuturor, datorită faptului de a fi fost scrisă direct într-o limbă de mare expansiune.
Destinul lui Panait Istrati în Portugalia este revelator: în vreme ce marii prozatorii citaţi mai sus sunt complet necunoscuţi (cu excepţia lui Rebreanu), numele lui Panait Istrati vine în mod natural pe buzele tuturor, când se vrea menţionarea unui scriitor român, în virtutea traducerii în portugheză a numeroase opere ale sale, ca: Kira Kiralina, Unchiul Anghel, Floarea, etc. Astfel, la cererea Editurii Glebea – care a contribuit mult la difuzarea literaturii române în Portugalia – de a scrie o Prefaţă la Ciulinii Bărăganului, cred că îmi rămân puţine de spus cititorului despre un autor care îi este deja familiar; de aceea, voi trata de preferinţă despre semnificaţia operei istratiene şi despre locul ei în literatura română şi europeană.
Panait Istrati, născut în 1884 într-un sat de lângă marele port danubian al Brăilei, a dus o viaţă agitată, de etern vagabondaj : Turcia, Grecia, Palestina, Egipt, Italia, Africa de Nord, Elveţia, Franţa … atâtea au fost cerurile sub care sufletul său torturat a căutat răspuns la neliniştitoarele întrebări umane, înainte de a pleca în ultima sa călătorie, către lumea de dincolo, în 1935.
Autodidact, Istrati îşi petrece copilăria în cartierele zgomotosului şi pitorescului port al Brăilei, pe care îl va face să reînvie cu atâta forţă în nuvelele sale. După un prim an de jurnalism brăilean, Istrati iniţiază în 1911 seria peregrinărilor sale, în căutare de cunoştinţe şi de experienţă umană, pentru a ajunge la o existenţă de proletar în Franţa, mai întâi în sud (ca încărcător, fotograf ambulant, cărăuş, etc.), şi apoi la Paris. Materialul uman acumulat în timpul acestui vagabundaj reiniţiat la nesfârşit, împreună cu geniul propriu, l-au incitat să scrie; a făcut-o în franceză, redactând un capitol din Kira Kiralina, pe care l-a trimis lui Romain Rolland. Celebrul autor al lui Jean – Cristophe nu a ezitat nici o clipă în a recunoaşte în acest anonim obscur un mare scriitor şi a publicat proza sa cu elogii, în revista “Europe” din August 1923; un an mai târziu, acelaşi Rolland, edita în volum Kira Kiralina cu o prefaţă în care, nu mai puţin entuziasmat, vedea în autodidactul Panait Istrati un nou Máximo Gorki, un “povestitor înnăscut”, al cărui volum de debut revela “un tumult de genio”. Aceste afirmaţii, datorită autorităţii unui Romain Rolland, şi-au produs imediat efectul, şi Istrati a devenit celebru de pe o zi pe alta. Era gloria, care niciodată nu mai avea să-l părăsească tot timpul vieţii sale, consacrate unei opere vaste.
Aceasta este compusă în mod esenţial din două mari cicluri, fiecare de patru nuvele; primul este reprezentat de: Kira Kiralina, Unchiul Anghel, “Haiducii” e A Princesa de Snagov; din cel de al doilea fac parte: Casa Thüringer, Escritório de colocações, Nascer do sol sobre o Mediterrâneo şi Pôr-do-sol sobre o Mediterrâneo. În afară de acestea, a publicat alte nuvele care nu au fost incluse în aceste cicluri: Codin, Mihail, Nerantsula şi Ciulinii Bărăganului.
Cele două cicluri se intitulează, respectiv, Povestirile lui Adrian Zograffi şi Copilăria lui Adrian Zograffi. Acest personaj nu este altceva decât alter-ego-ul autorului, ale cărui cărţi sunt fragmentele unei emoţionante biografii. Nerantsula şi Mihail sunt poemul Brăilei, în timp ce Ciulinii Bărăganului este resuscitarea revoltei agrare din 1907.
Panait Istrati, chiar şi în nuvelele aciclice, se descrie mereu pe el însuşi: “Poate să fie cineva scriitor – notează el undeva – dacă nu are (şi este cazul meu) un spirit inventiv? Sunt incapabil de a imagina o poveste pe care eu să nu o fi trăit cel puţin în linii mari. ” În această confesiune se găseşte explicaţia succesului său literar: spiritul inventiv al acestui povestitor înnăscut este întărit de o sinceritate arzătoare şi de o psicologie care frizează geniul. Istrati ne-a povestit de-a lungul operei sale, drama patetică a vagabundului care, în căutare de dreptate şi dragoste, se caută în acelaşi timp pe el însuşi. Centrul sistemului solar al operei sale samaritene este inima: “Nu este frumos pământul? (se întreabă pe sine însuşi unul din eroii săi). Oh, nu, minciună şi iarăşi minciună! Toată frumuseţea vine din inima noastră, cât timp este plină de bucurie. Când bucuria ne părăseşte, tot pământul este un cimitir. ”
Sinceritatea ferventă a inimii lui Panait Istrati se revelează în această pagină de confesiuni, care este în esenţă o admirabilă definiţie a propriei opere:
“Singur şi sprijinindu-mi coatele la fereastră – scria el în timpul peregrinărilor pe Mediterană – visez câteodată ore întregi. Şi nu e bine. Deorece visul este mult mai concret când se sprijină pe stâlpii puternici ai amintirilor. Şi cunosc foarte puţine lucruri despre trecutul îndepărtat al Egiptului. Nu este de vină timpul care mi-a lipsit să studiez, ci imposibilitatea de a reţine faptele. Creierul meu se împotriveşte oricărui ajutor care vine din cărţi. Dacă mama mea m-ar fi înscris la liceu, eu aş fi fost o mediocritate uimitoare. În vreme ce, aşa cum sunt, nu maimuţăresc pe nimeni şi nu îndrăznesc să zbor către înălţimi care cer aripi pe care nu le posed. În schimb, apreciez orice fărâmă de adevăr, care arde, ca fierul înroşit, inima mea insaţiabilă. Sunt un foc care arde de dorinţe. Pământul şi viaţa nu vor fi niciodata prea mari, pentru ceea ce eu pot să simt. O cârtiţă incandescentă – în definitiv, iată ce sunt.”
Am spus, în treacăt, că Ciulinii Bărăganului sunt, în aparenţă, romanul “jacquerie-ei” agrare din 1907. Dar, precum cititorul va avea ocazia de a vedea, insurecţiile ţărăneşti sunt tratate episodic. Panait Istrati se revelează, între toţi scriitorii români care au ales ca temă aceste revolte, cel mai îndepărtat în măsura posibilului de concepţia de “roman social”, aşa cum a fost înteles şi realizat, pe acelaşi subiect, de către Liviu Rebreanu în Răscoala şi Cezar Petrescu în 1907. La Istrati, aceste mişcări sociale sunt reduse la expresia lor cea mai simplă, pentru că aceasta este singura care se potrivea cu talentul scriitorului – un introspectiv – şi cu viziunea acestui roman – operă de atmosferă şi nu de substanţă epică. Ciulinii Bărăganului sunt mai degrabă – după fericita definiţie a criticului Perpessicius – poemul singurătăţilor, orizonturilor infinte, împărăţiei ciulinilor, purtaţi către alte lumi împreună cu nord-estul care îi urmăreşte ca pe suflete condamnate.
Chiar dacă datează din 1928, acest roman este unul din cele mai bune din toată opera sa, datorită atmosferei dense de nostalgie care cuprinde întinsele câmpii ale Bărăganului şi hoinărelilor sufletului istratian; stilul său ajunsese deja la acea simplitate patetică care lasă să se ghicească perfecţiunea la care acest scriitor, doborât de tizică la 51 de ani, ar fi ajuns într-o viaţă mai puţin furtunoasă şi mai lungă.
Scriitor român de limbă franceză, Panait Istrati pare a fi urmărit, chiar şi după moarte, de un Destin advers. Într-adevăr, scriitorul nostru este la fel de ignorat de istoricii literari din cele două patrii : Bédier-Hazard, Thibaudet, etc., nu îl menţionează pe Istrati nici măcar la Indice ! Iar René Lalou îi consacră doar nişte linii rapide. Din partea românească, excelentul manual al lui Basil Munteanu (Paris, 1938) îl ignoră complet, în timp ce G. Călinescu, în monumentala sa Istoria Literaturii Române (1941), este la fel de avar ca şi Lalou, în aceste linii reticente şi melancolice :
“ Chiar dacă Panait Istrati a dat şi versiuni româneşti operei sale franţuzeşti, ele nu va fi nicodată un scriitor român, pentru că acestor versiuni le lipseşte spontaneitatea şi acea traducere servilă a modismelor care produc în franceză un efect exotic. Şi – fapt care trebuie să dea de gândit emigranţilor – istoriile literare franceze îl ignoră şi ele. ”
Dar, depăşind aceste neglijenţe sau reticenţe ale criticilor franco – români, şi aşteptând verdictul definitiv al posterităţii, putem afirma că opera lui Panait Istrati a intrat deja în tabloul conştiinţei literaturii universale. Cât priveşte literatura româna – aşa cum se exprimă ea prin vocea autorizată a criticului Pepessicius – îl revendică pe Istrati cu putere, deoarece opera sa vine să completeze peisajul literaturii noastre din ultimii douăzeci de ani: alături de Rebreanu şi Sadoveanu, Istrati constituie trinitatea “epos-ului” român modern; împreună cu ei, Panait Istrati este, dintre toţi scriitorii moderni ai poporului latin din Carpaţi, cel care a adus cele mai multe probleme, cei mai mulţi eroi şi mai multă individualitate.

Prof. Victor Buescu
Lector de Limbă şi Literatură Română
la Facultatea de Litere din Lisabona

Os Cardos de Baragan de Panait Istrati

Prefácio

O caso de Panait Istrati é eloquente no que diz respeito ao ingrato destino da literatura romena que, sendo escrita num idioma de pouca circulação, está condenada a ficar dentro da esfera restricta dum só país, apesar da sua maturidade cada vez mais acentuada. Ora, justamente, a obra de Panait Istrati (que é um dos melhores romancistas romenos, mas não o melhor), tendo a sorte de ser redigida numa língua universal como a francesa, faz dele o prosador romeno mais popular em todo o mundo. “Istrati é um grande escritor, talvez o maior novelista europeu, depois de Máximo Gorki, mas não é o maior escritor romeno. Mesmo sem tomar em conta um romancista genial como Liviu Rebreanu, há diversos escritores romenos contemporâneos que são, pelo menos, de valor igual ao de Panait Istrati: temos, por exemplo, M. Sadoveanu, Cezar Petrescu, Mme. Hortensia Papadat-Bengescu, Gib I. Mihaescu, Camil Petrescu, Ionel Teodoreanu, Pavel Dan, etc.” (M. Eliade). Deplorando este handicap orgânico que as letras romenas conhecem devido ao entrave linguístico, e desejando que seja contrabalançado por uma campanha intensa de traduções (o que só foi feito esporàdicamente), devemos congratular-nos, como Romenos e como Europeus, que a prosa pujante de Panait Istrati esteja à disposição de todos, graças ao facto de o seu autor a ter escrito directamente numa língua de grande expansão.
A sorte de Panait Istrati em Portugal é reveladora: enquanto os grandes prosadores acima citados são totalmente desconhecidos (excepto Rebreanu), o nome de Panait Istrati vem naturalmente aos lábios de todos, quando se quer mencionar um escritor romeno, em virtude da tradução em português de numerosas das suas obras, como: Kira Kiralina, O tio Anghel, Floarea, etc. Assim, tendo-me pedido a Editorial “Gleba” – que muito contribuiu para a difusão da literatura romena em Portugal – um “Prefácio” para Os Cardos do Baragan, julgo que pouco me resta a dizer ao leitor sobre um autor que lhe é já familiar; tratarei, pois, de preferência do significado da obra istratiana e do seu lugar na literatura romena e europeia.
Panait Istrati, nascido em 1884 numa aldeia perto do grande porto danubiano de Braila, levou uma vida agitada, eterna vagabundagem: Turquia, Grécia, Palestina, Egipto, Itália, África do Norte, Suiça, França … – tanto foram os ceus sob que a sua alma atormentada procurou resposta às angustiosas perguntas humanitárias, antes de partir para a última viagem, para o Além, em 1935.
Autodidata, Istrati passa a infância nos bairros do buliçoso e pitoresco porto de Braila, que ele fará reviver com tão grande vigor nos seus romances. Depois de um primeiro período de jornalismo brailês, Istrati inicia em 1911 a série das suas peregrinações, em busca de conhecimentos e de experiência humana, para chegar a arrastar uma existência de proletário em França, primeiro no sul (como estivador, fotógrafo ambulante, carregador, etc.), em seguida em Paris. O material humano acumulado durante essa vagabundagem sem cessar recomeçada, assim como o seu próprio génio, incitaram-no a escrever; fê-lo em francês, redigindo um capítulo de Kira Kiralina que enviou a Romain Rolland. O famoso autor de Jean – Cristophe não hesitou um só instante em reconhecer nesse obscuro anónimo um grande escritor, e publicou a sua prosa com elogios, na revista “Europe” de Agosto de 1923; um ano depois, o mesmo Rolland editava em volume Kira Kiralina com um prefácio em que, não menos entusiasmado, via no autodidata Panait Istrati um novo Máximo Gorki, um “contista inato”, cujo primeiro volume revelava “um tumulto de génio”. Tais afirmações, devidas à autoridade dum Romain Rolland, produziram ràpidamente seu efeito, e Istrati tornou-se célebre de um dia para o outro. Era a glória, que nunca mais havia de deixá-lo durante toda a sua vida, consagrada a uma vasta obra.
Esta é essencialmente composta de dois grandes ciclos, cada um de quatro romances; o primeiro é representado por: Kira Kiralina, O tio Anghel, Os “Haiduci” e A Princesa de Snagov; do segundo fazem parte: A Casa Thüringer, Escritório de colocações, Nascer do sol sobre o Mediterrâneo e Pôr-do-sol sobre o Mediterrâneo. Além disso, publicou outros romances não incluídos nestes ciclos: Codin, Mihail, Nerantsula e Os cardos do Baragan.
Os dois ciclos intitulam-se, respectivamente, As histórias de Adrian Zograffi e A vida de Adrian Zograffi. Esta personagem não é outra senão o alter-ego do autor, cujos livros são fragmentos duma comovente autobiografia. Nerantsula e Mihail são o poema de Braila, enquanto Os cardos de Baragan é a ressuscitação da revolta agrária de 1907.
Panait Istrati, mesmo nos romances a-cíclicos, está sempre a descrever-se a si-próprio: “Pode-se ser escritor – nota ele algures – se não se tem (e é o meu caso) o espírito inventivo? Sou incapaz de imaginar uma história que eu não tenha vivido pelo menos nas suas grandes linhas.” Nesta confissão reside a explicação do seu sucesso literário: o espírito inventivo deste “contista inato” é reforçado por uma sinceridade ardente e uma psicologia que toca o génio. Istrati contou-nos ao longo da sua obra o drama patético do vagabundo que, à procura de justiça e do amor, procura-se ao mesmo tempo a si. O centro do sistema solar da sua obra samaritana é o coração: “ A terra é bela? (pergunta a si-próprio um dos seus heróis). Oh, não, mentira e mais mentira! Toda a beleza vem do nosso coração, enquanto está cheio de alegria. Quando a alegria nos deixa, a terra inteira é um cemitério.”
A sinceridade fervorosa do coração de Panait Istrati revela-se nesta página de confissões, que é na essência uma admirável definição da própria obra:
“Só é apoiado nos cotovelos à janela – escrevia ele durante as suas peregrinações pelo Mediterrâneo – sonho, por vezes horas inteiras. Sonho com este meu espírito vazio de recordações históricas. E não está certo. Porque o sonho é muito mais concreto quando se apoia sobre os fortes pilares das reminiscências. E sei pouquíssimas coisas do passado longínquo do Egipto. Não foi o tempo que me faltou para poder estudar, mas a impossibilidade de reter os factos. O meu cérebro é contrário a toda a ajuda que vem dos livros. Se minha mãe me tivesse matriculado no liceu, eu teria sido uma espantosa mediocridade. Ao passo que, tal como sou, não macaqueio ninguém, e não me atrevo a voar em alturas que exigem asas que não possuo. Em troca, aprecio toda a migalha de verdade, que queima, como o ferro ao rubro, o meu coração insaciável. Sou uma brasa ardente de desejos. A terra e a vida nunca serão demasiado grandes, para aquilo que eu possa sentir. Uma toupeira incandescente – em definitivo, eis o que sou”.

Sinceritatea ferventă a inimii lui Panait Istrati se revelează în această pagină de confesiuni, care este în esenţă o admirabilă definiţie a propriei opere:
“Singur şi sprijinindu/mi coatele la fereastră / scria el în timpul peregrinărilor pe Mediterană / visez câteodată ore întregi. Şi nu e bine. Deorece visul este mult mai concret când se sprijină pe stâlpii puternici ai amintirilor. Şi cunosc foarte puţine lucruri despre trecutul îndepărtat al Egiptului. Nu este de vină timpul care mi/a lipsit să studiez, ci imposibilitatea de a reţine faptele. Creierul meu se împotriveşte oricărui ajutor care vine din cărţi. Dacă mama mea m/ar fi înscris la liceu, eu aş fi fost o mediocritate uimitoare. În vreme ce, aşa cum sunt, nu maimuţăresc pe nimeni şi nu îndrăznesc să zbor către înălţimi care cer aripi pe care nu le posed. În schimb, apreciez orice fărâmă de adevăr, care arde, ca fierul înroşit, inima mea insaţiabilă. Sunt un foc care arde de dorinţe. Pământul şi viaţa nu vor fi niciodata prea mari,

Dissemos, de passagem, que Os cardos do Baragan são, aparentamente, o romance da “jacquerie” agrária de 1907. Mas, como o leitor terá ocasião de ver, as insurreições dos camponeses são nele tratadas episòdicamente. Panait Istrati revela-se, entre todos os escritores romenos que escolheram por tema essas revoltas, o mais alheio possível à concepção do “romance social”, tal como foi compreendido e realizado, sobre o mesmo assunto, por Liviu Rebreanu em A revolta e Cezar Petrescu em “1907”. Em Istrati, estes movimentos sociais são reduzidos à sua expressão mais simples, porque ela é justamente a única que enquadrava com o talento do escritor – um introspectivo – e com a visão deste romance – obra de atmosfera e não de substância épica. Os cardos do Baragan são antes – segundo a feliz definição do crítico Perpessicius – o poema das solidões, dos horizontes infinitos, do império dos cardos, levados pelo mundo fora com o nordeste que os persegue como almas penadas.
Se bem que date de 1928, este romance é um dos melhores de toda a obra, pela densa atmosfera de nostalgia que envolve as vastas planícies do Baragan e os erradios de alma istratiana; o estilo tinha já chegado a uma simplicidade patética que deixa adivinhar a perfeição a que este escritor, minado pela tísica aos 51 anos, teria podido chegar numa vida menos tormentosa e mais longa.
Escritor romeno de língua francesa, Panait Istrati parece ser perseguido, mesmo após a morte, por um Destino adverso. Com efeito, o nosso autor é igualmente ignorado pelos historiadores literários das duas pátrias: Bédier-Hazard, Thibaudet, etc., não mencionam Istrati nem mesmo nos Índices! Quanto a René Lalou, consagra-lhe apenas algumas linhas rápidas. Do lado romeno, o excelente manual de Basil Munteanu (Paris, 1938) ignora-o completamente, ao passo que G. Calinescu, na sua monumental Istoria Literaturii Române (1941), é tão avaro como Lalou, nestas poucas linhas reticentes e melancólicas:
“ Embora Panait Istrati tivesse dado também versões romenas à sua obra francesa, ele não será nunca um escritor romeno, porque a essas versões faltam a espontaneidade e aquela tradução servil dos modismos que produzem em francês um efeito exótico. E – facto que deve fazer pensar os emigrantes – as histórias literárias francesas ignoram-no também.”
Mas, superando estas negligências ou reticências dos críticos franco-romenos, e esperando o veredicto definitivo da posteridade, pode afirmar-se que a obra de Panait Istrati entrou já no quadro da consciência da literatura universal. Quanto à literatura romena – tal como ela se exprime pela voz autorizada do crítico Perpessicius – reivindica Panait Istrati com firmeza, pois a sua obra vem completar a paisagem da nossa literatura dos últimos vinte anos: com Rebreanu e Sadoveanu, Istrati constitui a trinidade do “epos” romeno moderno; com eles ainda, Panait Istrati é, de todos os escritores modernos do povo latino dos Cárpatos, aquele que traz mais problemas, mais herois e mais individualidade.

Prof. Victor Buescu

Leitor de língua e literatura romenas
na Faculdade de Letras de Lisboa

Recordações de Infancia de Ion Creanga

Apresentação

Publicando hoje as Recordações de Creanga como sétimo volume da colecção do Leitorado Romeno em Lisboa, não faço mais que cumprir a promessa feita na nota sobre o nosso autor, em 1946, quando da publicação dos “Novos Contos Romenos”. Graças ao conto que figura nessa antologia (p. 15-26), Ion Creanga não é um nome completamente desconhecido para o leitor português, que teve entretanto ocasião de ler um outro conto do mesmo autor, no “Mundo Literário” de 1-2-1947. E para que o mais castiço dos prosadores romenos seja apresentado em Portugal de maneira competente, dirigi-me ao seu exegeta mais categorizado: Jean Boutière, professor de língua e literaturas romenas na Sorbona, autor do melhor estudo de conjunto sobre o nosso escritor. (1) Tal colaboração honra-nos, e eu não podia deixar de lhe dirigir os mais vivos agradecimentos, em nome de todos os seus leitores portugueses.
Seja-me permitido, antes de lhe ceder a palavra, que eu ponha de parte a modéstia do meu antigo aluno e bom amigo António Ruivo Mousinho, para dizer quanto esta versão portuguesa lhe deve. Porque, se a iniciativa e a exactidão desta tradução me pertencem (2), deve fazer-se-lhe a justiça de precisar que foi ele quem, durante três anos, se consagrou com amor e obstinação à tarefa de achar a correspondência portuguesa dum texto dos mais difíceis, por vezes quase intraduzível em virtude da sua intensidade expressiva e do seu carácter local.
Quero agradecer igualmente ao colega e amigo Dr. Jacinto do Prado Coelho, da Faculdade de Letras de Lisboa, que teve a amabilidade de ler a nossa tradução e de sugerir uma série de emendas muito felizes, sobretudo no que diz respeito ao falar aldeão – e nisso felicito-me por ter podido recorrer ao estudioso e penetrante conhecedor de Camilo, o mago do vernaculismo português.
Um último agradecimento, em fim, a essa artista do lápis que é Maria Almira Medina, cuja recente exposição me dispensa de a apresentar; a sua delicada sensibilidade, igualmente manifesta no volume de versos “Distância”, conseguiu a série de dezoito graciosos esboços que adornam este “livro de oiro” da literatura romena.
Livro a que eu auguro o mesmo êxito que em Itália (1), para maior glória do genial Creanga e para justa apreciação em Portugal dos valores culturais da Roménia.

Victor Buescu
Leitor de língua e literatura romenas
na Faculdade de Letras de Lisboa

(1) J. Boutière, La vie et l’oeuvre de Ion Creanga, Paris, Gamber, 1930.
(2) Assim como as notas.
(1) Ion Creanga, Ricordi d’infanzia, trad. Di A. Silvestri-Giorgi: Firenze, La nuova Itália, 1931. – A França possuirá em breve duas versões dos Souvenirs d’enfance, uma feita por Yves Auger, professor na Universidade romena de Cluj, e a outra por J. Boutière, professor na Sorbona, que teve a bondade de nos comunicar o Prefácio, escrito para esse livro.

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